IMPÉRIO DOS MARÍTIMOS MANTÉM VIVA A TRADIÇÃO DO SEGUNDO BODO


A freguesia de Santa Cruz, no concelho da Praia da Vitória, possui atualmente dez impérios do Divino Espírito Santo, testemunhando a importância que esta manifestação de fé continua a assumir na vida religiosa, social e cultural da comunidade. Entre essas dez irmandades, cinco encontram-se localizadas no centro urbano e histórico da cidade. No entanto, apenas uma mantém a tradição de realizar as suas festividades no Domingo da Trindade, vulgarmente designado por “Segundo Bodo”: o histórico Império dos Marítimos.

A singularidade desta celebração confere-lhe um lugar especial no panorama das festividades do Divino Espírito Santo da Praia da Vitória. Num contexto em que a preservação das tradições depende cada vez mais da dedicação voluntária das comunidades, o Império dos Marítimos continua a afirmar-se como um símbolo de resistência cultural e de fidelidade às raízes açorianas.

Segundo as informações disponibilizadas na aplicação “E-Praia”, esta irmandade foi fundada em 1877, no último quartel do século XIX, por um grupo de pescadores devotos do Divino Espírito Santo. Oriundos da ilha do Pico, estes homens do mar foram liderados por Pedro Pereira Madruga, figura que permanece associada às origens da instituição.

Durante décadas, o Império dos Marítimos destacou-se como uma das mais fortes e influentes irmandades do centro histórico da Praia da Vitória. A sua ligação à comunidade piscatória da cidade conferia-lhe uma enorme vitalidade, refletindo a importância económica e social que o setor das pescas assumia na época.

Contudo, as profundas transformações verificadas ao longo do século XX vieram alterar essa realidade. A transferência do porto de pescas para a freguesia vizinha do Cabo da Praia, aliada ao progressivo enfraquecimento da atividade pesqueira, tanto nos Açores como no restante país, contribuiu para a redução da dimensão e da influência da irmandade.

Apesar das dificuldades e das mudanças sociais que marcaram as últimas décadas, o Império dos Marítimos nunca deixou de cumprir a sua missão. Atualmente, a continuidade desta tradição deve-se em grande medida ao trabalho persistente de uma comissão de mordomos dedicada e empenhada, liderada por António Avelino Borges.

Ano após ano, esta equipa tem assumido a responsabilidade de organizar as festividades, garantir a realização das cerimónias religiosas e manter viva uma herança cultural que atravessa gerações. O seu trabalho tem permitido que uma das mais antigas tradições do centro histórico da Praia da Vitória continue a ser transmitida às novas gerações, preservando valores como a fé, a solidariedade, a partilha e o espírito comunitário.

Neste Domingo da Trindade, assinalado a 31 de maio de 2026, a tradição voltou a cumprir-se. Após a Coroação e o respetivo cortejo até ao Império, realizou-se a distribuição do tradicional Bodo, um dos momentos mais aguardados das festividades.

Atualmente, o Bodo do Império dos Marítimos mantém características próprias que o distinguem. Aos populares presentes é distribuído um pão de trigo com cabeço, acompanhado da oferta de vinho ou sumo e de fatias de massa sovada, perpetuando gestos de partilha que fazem parte da essência das Festas do Espírito Santo.

A edição deste ano contou com uma significativa componente cultural. A distribuição do Bodo foi acompanhada por elementos do grupo folclórico “Doce Esperança”, da Praia da Vitória, cuja participação conferiu uma dimensão histórica e identitária ao evento.

Trajados a rigor e inspirados nas tradições populares terceirenses, os elementos do grupo contribuíram para recriar ambientes e costumes associados às antigas festividades do Espírito Santo, enriquecendo a experiência dos participantes e valorizando o património imaterial açoriano.

Após a distribuição do pão e do vinho, a celebração prolongou-se durante a tarde com uma atuação do grupo “Doce Esperança”, que interpretou diversas canções do cancioneiro tradicional da Terceira e dos Açores. A música popular voltou assim a desempenhar o seu papel de ligação entre passado e presente, evocando memórias e reforçando o sentimento de pertença à comunidade.

O programa culminou com a tradicional tiragem de peloiros, momento que marca o início de mais um ciclo de preparação para as futuras festividades e simboliza a continuidade de uma tradição assente na fé, na devoção e na partilha.

Num tempo em que muitas práticas comunitárias enfrentam desafios crescentes para sobreviver, o exemplo do Império dos Marítimos demonstra como o empenho de pessoas dedicadas pode garantir a preservação de um património secular. Sob a liderança de António Avelino Borges e da atual comissão de mordomos, a irmandade continua a honrar o legado deixado pelos pescadores que a fundaram há quase 150 anos, assegurando que o “Segundo Bodo” permanece vivo no coração da Praia da Vitória cidade.

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