
O povo, historicamente aquele que trabalha e produz riqueza, para que os ricos se tornem cada vez mais ricos. As elites são uma parte restrita desse povo, que através dessa riqueza e da iliteracia dos mais frágeis, se coloca no patamar dos benefícios, dos seus interesses pessoais e inclusivamente, no domínio do poder institucional…
Nos jornais, nas redes sociais ou até mesmo nos cafés, é neste momento dominante a palavra Bairrismo. Nomeadamente entre as Ilhas de São Miguel e a Terceira. Penso jamais ter assistido a tanta veemência no sentido de dividir e de criar rivalidade, entre Micaelenses e Terceirenses.
“Dividir para reinar” provérbio bastante antigo, mas que parece ser atual, na mente das chamadas elites, criadas nos locais centrais dos poderes instalados, com maior incidência na cidade de Ponta Delgada.
As “Elites” desprezam o sentido harmónico de uma Região e promovem o absolutismo de uma parte em pretérito da restante… Daí, o crescimento do centralismo, não pela generalidade dos habitantes, mas sim, por aqueles, que tanto dentro como fora, o promovem de qualquer feitio, de modo a manterem os seus privilégios, mesmo que adquiridos através do suor do povo que os rodeia…
Rejeito a afirmação de Micaelenses contra Terceirenses ou vice-versa! Ambos são povo trabalhador, que cuida das suas vidas, usufrui dos seus costumes e apela pelos seus valores. Enquanto os primeiros foram escravos do passado, dominados e explorados pelos latifundiários, possuidores de enormes riquezas, inclusive nesta Ilha de Jesus Cristo, como donos de grande parte dos terrenos onde hoje se situa a Base das Lajes, os segundos tiveram o benefício da vinda dos Ingleses e mais tarde dos Americanos, com a instalação do aeroporto, que os havia de afastar da mesma escravidão a que se sujeitavam os Micaelenses na sua terra.
A Base das Lajes acabaria sendo o refúgio e a esperança de dias melhores, para algumas centenas de Micaelenses, que mesmo contra a vontade das Elites latifundiárias daquele tempo, as quais precisavam da sua mão de obra barata, conseguiram pelos mais diversos meios, instalar-se na Ilha Terceira, trabalhando para as Forças Armadas dos Estados Unidos, onde constituíram família, criaram raízes e aumentaram a comunidade Terceirense. Enquanto outros escolheram emigrar, nomeadamente para os Estados Unidos, os referidos preferiram ficar naquela que havia de ser apelidada de “América Pequenina”.
Os tempos mudaram e hoje, são vários ou mesmo centenas os Terceirenses que escolheram a Ilha de São Miguel para viverem. O Meio é maior, as oportunidades de emprego são acrescentadas, constituem família e deixam-se por lá ficar.
Essa boa relação entre os habitantes das duas Ilhas não pode ser preterida e aproveitada pelas Elites para a dividir. Não deve ser aceitável que se generalize o bairrismo ou centralismo, só porque alguém do alto do seu pedestal, se digne afirmar que o desenvolvimento da Ilha Maior, seja o contributo para o crescimento das mais pequenas. Que a redundância da saúde no Arquipélago não seja um direito de todos os açorianos… Que as mais diversas estruturas portuárias ou aeroportuárias, fontes do desenvolvimento harmónico da Região Autónoma dos Açores, não sejam também entendidas dentro do espírito da redundância…
Pensar desse modo, é ressuscitar o absolutismo do Terreiro do Paço… É condenar a Autonomia Regional ao seu fracasso!
Tenho provas dadas do bom acolhimento dos Micaelenses, enquanto Amigo da Casa do Povo da Fajã de Baixo e dos seus dirigentes, que me recebem de braços abertos sempre que os visito. Outras boas experiências tive com aquele povo, que trabalha duro para sobreviver, e que tal como os de fora, sofre as consequências dessa “Elite” conservadora, que intencionalmente é capaz de o usar para semear o ódio, o descrédito e o malfadado bairrismo entre a Ilha Terceira e a do Arcanjo.
Fernando Mendonça
