
Tempos e tradições da nossa terra.
“Mês de Abril, águas mil”
“Água de Abril, adubo das terras”
Era isto, que diziam os meus e vossos antepassados que cultivavam a terra para sustento das suas famílias.
Não havia manuais de informação, nem tecnologia ensinada aos agricultores, que não fosse a da leitura da natureza…
Era portanto, baseados nesses ciclos criados por ela própria, que os agricultores se orientavam e ensinavam aos seus vindouros.
Para além desses ditos sobre o abençoado mês de Abril para os agricultores, também dizia meu pai, que o mês de Fevereiro era para ele, o maior do ano.
Ficava perplexo, quando me fazia tal afirmação, e perguntava-lhe como era possível ser o maior, se tinha apenas vinte e oito dias?
Sem pestanejar respondia-me, como se gozando da minha ignorância na matéria…
Filho, o mês de Fevereiro é para os agricultores o maior, porque acaba sendo o término de um ciclo muito difícil para a sustentabilidade dos animais. As terras estão frias, os dias são pequenos, as ervas não se desenvolvem, logo a ansiedade do agricultor em iniciar o mês de Março, no qual, tudo começa a crescer e a desenvolver-se, embora ainda com alguma lentidão, até à vinda do Abril, esse sim, de águas mil e do adubo da terra!
Foi através desses conhecimentos adquiridos pelos nossos antepassados, que foi criado na nossa Ilha Terceira, o almanaque “o camponês”, ainda hoje seguido por muita gente, tanto da minha geração, como da do meu filho.
“O Camponês” orienta-se nomeadamente pelos ciclos da lua, estudada pelos próprios camponeses ao longo dos séculos e, com provas dados de bons resultados, tanto para as sementeiras, como para as colheitas.
Novos tempos, novas eras! Surgiram as alterações climáticas, muitas delas criadas pelo próprio homem, alterando todo o sistema planetário, nomeadamente, no que diz respeito aos ciclos da natureza, antes, mais ou menos assertivos, e hoje confusos, até para as avançadas tecnologias.
De qualquer modo, apesar de todas essas variantes, criadas pelas referidas alterações climáticas, o mês de Abril despediu-se na minha localidade com algum sol pela manhã, embora um pouco envergonhado, seguido de chuva, por alguns momentos, quase torrencial…
A partir de amanhã, inicia-se um novo ciclo com a vinda do mês de Maio. Ao contrário de antigamente, em que os campos se enchiam dos trigais, que lhes iam dar as cores do sol doirado, vão-se encher dos milheirais, que serão o sustento para o gado ao longo do verão e até do próprio Inverno.
Vão ser dias duros para os agricultores, mas não lhes faltará tempo, para assistirem e participarem nas dezenas ou centenas de touradas à corda que ocorrerão na nossa Ilha, em praticamente todas as Freguesias ou locais, com início a 1 de Maio, findando a 15 de Outubro.
Imagino o que alguns estão pensando!
A partir de Maio, o agricultor é só toiros e mais nada… Ao contrário de outras regiões, não querem trabalhar!
Esquecem-se ou desconhecem, que o agricultor, para compensar o tempo da ida à tourada, se levanta ás 4/5 da madrugada, a fim de ordenhar as vacas, cultivar os campos, deixar os animais tratados, e só aí, avançar para a tourada à corda, onde vai poder descansar o corpo e confraternizar com os amigos.
Também amanhã, se percorrermos a nossa Ilha, podemos ver sinais de outra tradição secular. “Os Maios” artisticamente feitos e imaginados por vários executantes, refletindo a crítica, ou a mensagem das nossas várias tradições culturais.
Feliz dia um de Maio, para todos os meus amigos e leitores.
Fernando Mendonça
