O PRESIDENTE DA APIR/AÇORES LAMENTA, QUE OS IRC DA REGIÃO TENHAM SIDO VACINADOS CONTRA A COVID-19 UM MÊS DEPOIS DOS RESTANTES DOENTES DO PAÍS

Em entrevista ao Praia Expresso, Osório Silva, presidente da Direção da delegação dos Açores da Associação Portuguesa de Insuficientes Renais (APIR/Açores), lamenta que a Direção Regional da Saúde não tenha acompanhado as determinações da Direção-Geral da Saúde, da “Task Force” Nacional e até o exemplo do Serviço Regional de Saúde da Madeira, e tenha optado por vacinar os insuficientes renais açorianos com um mês de atraso em relação aos demais doentes do país, quando estudos epidemiológicos internacionais apresentam este grupo como de alto risco. Ainda assim, Osório Silva não deixa de congratular a Direção Regional da Saúde por ter desencadeado o processo de vacinação, tendo inclusivamente comunicado à APIR/Açores o seu início.


Criada a 26 de junho de 2016, a delegação dos Açores da Associação Portuguesa dos Insuficientes Renais (APIR/Açores) tem sido a voz dos insuficientes renais crónicos no arquipélago, prestando apoio moral, físico, social e informativo a este doentes, mas também zelando e reivindicando juntos dos poderes instituídos pelos seus direitos, nomeadamente, no que diz respeito ao direito à vida, ao trabalho e à reabilitação, assim como pugnando pela sua plena reintegração quer a nível profissional como social.

APIR/Açores inaugurou a sua sede social em outubro de 2017

Depois de uma fase inicial de divulgação da sua própria existência, a APIR/Açores que inaugurou a sua sede social em outubro de 2017, tem-se revelado um parceiro importante na definição das políticas públicas para esta área, bem como na sensibilização da população em geral para esta doença. Exemplo disso, é a comemoração anual que desde a sua criação leva a cabo do Dia Mundial do Rim, com campanhas de sensibilização, informação e rastreio da doença, assim como o seu contributo para a abertura, em 2020, do novo centro de hemodiálise na ilha do Pico.

Além da sua constante reivindicação e contributo para a melhoria dos equipamentos de tratamento de hemodiálise na Região, destaque, mais recentemente, para a sua posição relativamente ao processo de vacinação contra a COVID-19 nos Açores, que levou a que os insuficientes renais crónicos em fase terminal (hemodiálise e diálise peritoneal) iniciasse a sua vacinação no início do presente mês.

Conforme noticiado pelo Praia Expresso, tomou recentemente posse os novos órgãos sociais da APIR/Açores, na sequência das eleições realizadas por correspondência, entre dezembro do ano transato e janeiro deste ano, cujo processo ficou totalmente concluído no passado dia 09 de fevereiro.

Osório Silva foi reconduzido na presidência da Direção para um segundo mandato de quatro anos (2021/2024). De modo a aferir como decorreram os últimos quatro anos, quais as orientações para os próximos quatro, e de um modo geral, qual a situação do insuficientes renais crónicos nos Açores, Praia Expresso esteve à conversa com Osório Silva, a qual apresentamos abaixo:

“[…] unir todos os que estão ligados à doença renal na região, mesmo com a existência de barreiras devido à nossa condição arquipelágica”.

Praia Expresso (PE) — Recentemente tomou posse para mais um mandato como presidente da Direção da APIR/Açores. Que balanço faz dos últimos quatro anos e quais as linhas mestras para o próximo quadriénio?
Osório Silva (OS) — No último quadriénio e tendo em consideração que a Delegação da APIR/Açores tinha sido recentemente implementada na região, o nosso primordial objetivo foi, desde logo, dar a conhecer a existência da nossa delegação e mostrar as principais diretrizes da nossa missão. Para tal, foi necessário deslocarmo-nos aos três centros de hemodiálise existentes na região, mais precisamente, no Hospital da Horta, no Hospital de Espírito Santo, na ilha de São Miguel, e no Hospital Santo Espírito da ilha Terceira.
Desde então, temos seguido as linhas mestres que norteiam a nossa Associação: ajuda moral, física, social e informativa, defesa dos direitos, regalias e interesses dos doentes renais, com destaque para o direito à vida, ao trabalho, à reabilitação e reintegração profissional e social dos Insuficientes Renais Crónicos (IRC). Temos assumido, de igual modo, o compromisso de unir todos os que estão ligados à doença renal na região, mesmo com a existência de barreiras devido à nossa condição arquipelágica. Este trabalho tem sido promovido através de ações de divulgação e prevenção, expondo problemas e necessidades e defendendo o acesso e a melhoria da qualidade dos cuidados de saúde.
Para o próximo quadriénio, pretendemos aperfeiçoar a nossa missão, apesar de nesta fase termos uma limitação enorme: o facto de os contactos não serem efetuados via presencial como preferíamos. De qualquer modo e face à nova realidade que vivemos, a Delegação da APIR adaptou-se à nova realidade assumindo com o objetivo prioritário de ajudar na resposta imediata, tendo por base as dificuldades vividas pelos colegas devido aos efeitos diretos e indiretos da pandemia na vida dos IRC.

“Os Açores possuem um serviço de hemodiálise dos melhores a nível europeu”.

PE — Segundo dados da própria APIR/Açores existem 383 insuficientes renais crónicos na região para 4 unidades de diálise distribuídas por 4 ilhas (S. Miguel, Terceira, Faial e Pico). As unidades existentes e a sua localização estão adequadas à distribuição dos doentes por ilha?
OS — Conhecendo as condições dos nossos centros de hemodiálise, quer a nível humano e técnico, bem como a nível nacional e Europeu – refiro este último por ter realizado vários tratamentos de hemodiálise em diversos países da Europa –, posso assumir que os Açores possuem um serviço de hemodiálise dos melhores a nível europeu. No entanto, não significa que não haja melhorias a efetuar no que diz respeito, por exemplo, a consultas complementares, assim como noutras questões que afetam a vida dos IRC na região.

“Um em cada 10 adultos tem doença renal crónica”

PE — Tal como muitas outras doenças, a insuficiência renal crónica é uma doença “silenciosa”, sendo essencial apostar na sua prevenção. Como avalia a política de rastreios nos Açores?
OS — Atualmente, a doença renal crónica afeta cerca de 850 milhões de pessoas em todo o mundo, o que significa que um em cada 10 adultos tem doença renal crónica, sendo já considerada a doença do século. Existe uma clara necessidade de reforçar a prevenção na saúde, não esquecendo que a larga maioria dos IRC na região está associada a outras patologias, seguindo a tendência mundial.
O sucesso do bem-estar na saúde passa, claramente, pela prevenção e, acima de tudo, por responsabilizar cada um de nós, ou seja, cada cidadão é que deve ter a  obrigatoriedade de prevenir a sua saúde mas para isso é necessário termos um Serviço Regional de Saúde ainda mais próximo dos cidadãos, de modo a permitir a que cada cidadão esteja devidamente informado de modo a saber o que é saudável e o que não é, e como se auto vigiar aos mais diversos sintomias, só a partir daí é que não se pode responsabilizar ninguém, senão a nós próprios.
Isto não significa que não se reforce ainda mais a política preventiva na escola. Nas últimas décadas, deu-se passos largos, mas nunca é de mais alertar que há ainda um longo caminho a percorrer. Basta verificarmos os problemas associados à obesidade nas crianças nos Açores, sendo esta doença uma das maiores causas de IRC em todo o mundo e que, por sua vez, leva ao surgimento de outras patologias como os diabéticos, hipertensão, entre outras.
Em termos práticos, o surgimento da IRC não está somente associado a estilos de vida alimentares, mas sim a causas naturais, sendo esta uma percentagem baixa comparativamente com as outras patologias acima referidas.

“nova direção decidiu elaborar um inquérito com esse objetivo que, a seu tempo, será divulgado”

PE — Quais os constrangimentos que este tempo de pandemia COVID-19 provocaram e provocam aos doentes de insuficiência renal crónica?
OS — Para além da resposta que é dada no dia-a-dia e uma vez que sentimos a necessidade de aprofundar o real impacto da pandemia na vida dos IRC na região, esta nova direção decidiu elaborar um inquérito com esse objetivo que, a seu tempo, será divulgado.

“[Vacinação] dos IRC em fase terminal em hemodialise e diálise peritoneal, não está a decorrer nos Açores como perspetivávamos”.

PE — Como está o processo de vacinação contra a COVID-19 destes doentes nos Açores?
OS — No caso dos IRC em fase terminal em hemodialise e diálise peritoneal, não está a decorrer nos Açores como perspetivávamos. Sempre pensámos que o Serviço Regional de Saúde (SRS) acompanharia a evolução das decisões tomadas a nível nacional. A gestão dos Planos de Vacinação possui uma dinâmica que é possível adaptar-se aos novos estudos técnicos/científicos que têm vindo a surgir sobre o processo relacionado com as causas e efeitos da Covid-19 em diversas patologias.
Sabendo que os doentes que fazem hemodiálise constituem uma população mais vulnerável, que apresentam quadros mais graves e maior mortalidade associada à Covid-19 – situação esta reconhecida em diversos estudos epidemiológicos internacionais –, pelo facto de os doentes serem maioritariamente idosos, com grande fragilidade e várias comorbidades (diabetes, hipertensão, insuficiência cardíaca), a DGS e a Task Force decidiram avançar no mês de janeiro com a vacinação destes doentes nos dias 28, 29 e 30 de janeiro, abrangendo mais de 11 mil doentes em todo o país. Inclusive, o Serviço Regional de Saúde da Madeira também assumiu dar prioridade urgente, enquanto nos Açores só no final da semana passada, ou seja, passado um mês, é que se iniciou a vacinação dos IRC na região. Contudo, não deixamos de congratular a Direção Regional da Saúde por ter desencadeado todo este processo que, inclusivamente, nos comunicou quando seria o seu início.
No que concerne à vacinação dos transplantados renais, e em conjunto com outras associações que representam os transplantados do nosso país, tem-se mantido um diálogo com as entidades que gerem o processo de vacinação, inclusive com a Task Force, para ser considerada a antecipação da vacinação destes doentes. Estudos publicados indicam que a população transplantada, que contraiu a Covid-19, apresentou um risco de morte ou de necessidade de ventilação mecânica 30% superior à da população não transplantada, atingindo tal percentagem 40%, no caso de transplantados pulmonares.

© PE | Fotos: APIR/Açores

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s