UMA REGIÃO A CORES

Sofia Ribeiro

Por diversas vezes tenho mencionado a importância de se fazer análises precisas dos indicadores de desenvolvimento da nossa Região e das nossas empresas (em especial do setor público empresarial), pois apenas com recurso a um “retrato” completo é possível definir com seriedade políticas públicas que se concretizem em melhores condições de vida. Não é rara a utilização enviesada da estatística, condicionada por estudos parciais de dados habilmente selecionados, dirigindo os factos para campanhas partidárias ou de promoção dos Governos, e frequentemente é necessário desmontar os dados que nos são apresentados, no interesse comum.

É o que sucede das reações do Governo Regional e do Partido Socialista dos Açores aos últimos dados trimestrais do desemprego nos Açores. Sem desprimor das iniciativas europeias, nacionais e regionais de proteção ao emprego durante a pandemia, foi absolutamente abusiva e irresponsável a utilização dos dados do desemprego para a promoção do Governo Regional. Utilizar a redução do desemprego para promover o Governo assumiu contornos de oportunismo bacoco, quando essa diminuição resultou de uma natural quebra de indivíduos à procura de emprego, face à pandemia que enfrentamos e às medidas de confinamento que foram necessárias. É verdade que o desemprego na região diminuiu, pois era de 8,2% no segundo trimestre de 2019 e foi de 4,9% de março a junho deste ano. Contudo, como consta do relatório do Serviço Regional de Estatística, a diminuição do desemprego na comparação com o mesmo período do ano passado “deveu-se à diminuição do número de desempregados à procura do primeiro emprego, que passaram de 2.242 para 473 indivíduos (-78,9%), e também dos desempregados à procura de novo emprego, que passaram de 8.068 indivíduos para 5.322 indivíduos (-34,0%)”. De acordo com esta mesma fonte oficial, o emprego diminuiu 2,1% na comparação com igual período do ano passado, tendo-se verificado uma diminuição da população ativa e, portanto, disponível para o trabalho, em 5,6%.

Sendo esta uma situação que decorre de uma pandemia, tem subjacente uma questão que tem sido subvalorizada, nomeadamente a que respeita à taxa de atividade nos Açores, inferior à do País e da União Europeia. Na relação com o total da população, temos menos cidadãos entre os 15 e os 64 anos disponíveis para o emprego, sendo este um dado correlacionado com a pobreza. A este respeito, não deixam de ser interessantes as declarações do anterior Presidente do Governo Regional, Carlos César, quando refere que os indicadores não correspondem à realidade económica e social, dado o trabalho não declarado e a economia informal nos Açores. Todos nós conhecemos situações de indivíduos que não aceitam declarar o trabalho para não perderem o direito ao rendimento social de inserção, ou para fugir aos impostos. Ora, esta é uma questão de fulcral importância, nem que seja por maior justiça social e de subsistência do Estado Social, e não podemos continuar a assobiar para o lado relegando para a República um controlo que não deve deixar de ser feito pela Região.

De nada interessa, portanto, pintar a Região de cor de rosa, é urgente pintá-la com cores variadas, para que possamos progredir.

Sofia Ribeiro
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sribeiro.maisacores@gmail.com

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