Os Açores contabilizam 81 espécies marinhas não indígenas confirmadas, num total de 231 registadas em Portugal continental e nos arquipélagos dos Açores e da Madeira, segundo um estudo liderado por investigadores do MARE e da ARNET, publicado na revista científica Marine Pollution Bulletin. O trabalho constitui a atualização mais completa do inventário nacional desde 2015 e inclui uma nova lista de vigilância baseada em ADN ambiental.
Os Açores concentram 81 das 231 espécies marinhas não indígenas confirmadas em Portugal, de acordo com um novo estudo científico publicado na revista Marine Pollution Bulletin, que atualiza, pela primeira vez desde 2015, o inventário nacional destas espécies.
A informação divulgada pelo MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente indica que o trabalho reúne 31 investigadores de 11 universidades portuguesas, três entidades públicas nacionais e diversos institutos de investigação, tendo sido liderado por investigadores do MARE e da ARNET – Rede de Investigação Aquática.
Do total de espécies identificadas, 159 ocorrem em Portugal continental, 81 nos Açores e 62 na Madeira. O estudo permite ainda perceber diferenças significativas quanto à origem das espécies, com o Atlântico Norte a assumir particular importância nos arquipélagos.
ATLÂNTICO NORTE DOMINA NOS AÇORES
Nos Açores, 37% das espécies marinhas não indígenas identificadas têm origem no Atlântico Norte, enquanto 19% provêm do Pacífico Norte. Este padrão aproxima o arquipélago do perfil observado em Portugal continental, embora se distinga do registado na Madeira.
Naquele arquipélago, 27% das espécies têm origem no Atlântico Norte e 24% no Atlântico Tropical. Já no continente, o Pacífico Norte representa a principal região de origem, com 39% das espécies, seguindo-se o Atlântico Norte, com 24%.
O estudo aponta para a existência de diferentes padrões geográficos de introdução de espécies marinhas não indígenas nas águas portuguesas, num fenómeno que os investigadores consideram dinâmico e transfronteiriço.
Em todo o território nacional, o transporte marítimo, nomeadamente através da água de lastro e da bioincrustação nos cascos dos navios, surge como a principal via de introdução. A aquacultura assume, por sua vez, um peso particularmente relevante no continente.
ADN AMBIENTAL PERMITE DETEÇÃO PRECOCE
Uma das novidades do trabalho é a criação de uma lista de vigilância com 22 espécies detetadas exclusivamente através de métodos moleculares, incluindo ADN ambiental, mas cuja presença ainda não foi fisicamente confirmada.
Esta metodologia poderá funcionar como um sistema de alerta precoce, permitindo identificar potenciais espécies invasoras antes de estas serem observadas diretamente no ambiente marinho.
O estudo alerta, contudo, para uma lacuna na informação genética disponível. Embora 71% das espécies catalogadas estejam representadas em bases de dados genéticas internacionais, apenas 12,5% possuem sequências obtidas a partir de espécimes recolhidos em águas portuguesas.
Segundo os investigadores, esta realidade pode limitar a fiabilidade de ferramentas de deteção rápida, como o ADN ambiental, nomeadamente quando é necessário distinguir espécies geneticamente semelhantes. O reforço da recolha de amostras em águas portuguesas é, por isso, apontado como uma prioridade para melhorar a vigilância genética.
“As invasões marinhas são um fenómeno dinâmico e transfronteiriço, e compreendê-las exige uma ciência capaz de trabalhar à mesma escala“, afirma Romeu Ribeiro, investigador do MARE na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e primeiro autor do estudo, citado na informação divulgada pelo centro de investigação.
O investigador sublinha que o trabalho permitiu “ir muito além de uma simples atualização do número de espécies”, ao revelar padrões de introdução, lacunas no conhecimento genético e prioridades para a monitorização futura.
CINCO ESPÉCIES NOVAS PARA PORTUGAL
A atualização do inventário nacional inclui ainda cinco espécies que nunca tinham sido registadas em Portugal. Estas foram identificadas na costa sudoeste do continente, junto ao Porto de Sines, através de um programa de monitorização ambiental de longo prazo iniciado em 1997.
A investigação resulta de uma colaboração nacional coordenada por Paula Chainho, investigadora do MARE na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, envolvendo a Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM), o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), além de investigadores de 11 universidades portuguesas.
O trabalho contou, entre outros apoios, com financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), através da Agenda NEXUS, e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
Para os Açores, a atualização assume particular relevância num contexto em que a localização do arquipélago no Atlântico Norte e a sua ligação às rotas marítimas internacionais tornam a monitorização das espécies marinhas não indígenas uma ferramenta importante para acompanhar eventuais alterações na biodiversidade e antecipar novas introduções.
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