OS ASSOBIOS DE FAMÍLIA QUE SE DEIXARAM DE USAR…

Havia mesmo assobios de família… e quem viveu a infância há algumas décadas provavelmente ainda se lembra do seu.

Quando eu era miúdo e brincava na rua, na Cruz Quebrada, em Oeiras, os meus pais tinham um assobio próprio para me chamar. Não era preciso gritar pelo meu nome, nem andar à minha procura pelas ruas. Bastava aquele som, que eu reconhecia imediatamente, mesmo no meio de outros assobios, vozes e brincadeiras. E não era apenas a minha família que tinha o seu… outros miúdos tinham também o assobio através do qual os pais os chamavam, e nós acabávamos por conhecer os assobios das famílias da rua quase tão bem como conhecíamos as próprias pessoas.

Havia até uma hora certa para os assobios… pelas oito da noite começavam a ouvir-se pela rua os chamamentos para ir jantar. Um assobio aqui, outro mais adiante, e cada criança sabia qual era o seu. Não havia telemóveis, mensagens ou localizações partilhadas… havia o assobio dos pais e a obrigação, nem sempre cumprida à primeira, de aparecer em casa.

Era assim numa Lisboa que já não existe da mesma maneira, naquela Cruz Quebrada de Oeiras onde as crianças brincavam na rua, iam sozinhas para a escola, passavam horas fora de casa e até iam para a praia sem que os pais soubessem a cada instante onde estavam. Havia uma liberdade que hoje parece quase inimaginável… e havia também uma confiança que fazia parte da vida quotidiana.

O mais curioso é que, tantos anos depois, há um lugar onde esse velho hábito continua a funcionar.

Quando estou com a minha mãe num supermercado e, entre corredores, prateleiras e pessoas, nos perdemos um do outro, por vezes ela faz aquele assobio… e eu encontro-a imediatamente. É como se, por alguns segundos, desaparecessem o supermercado, os anos que passaram e todas as formas modernas de comunicação, ficando apenas aquele som que aprendi a reconhecer quando era miúdo.

O assobio de família foi caindo em desuso à medida que mudámos a maneira de viver. Primeiro vieram os telefones, depois os telemóveis, as mensagens e agora até podemos saber a localização exacta de alguém através de uma aplicação… já quase ninguém precisa de assobiar para chamar os filhos para jantar.

Mas talvez tenhamos perdido qualquer coisa pelo caminho.

Este artigo não é acompanhado por uma fotografia… é acompanhado pelo meu assobio de família, gravado num MP3. Talvez, ao ouvi-lo, se lembre de que também existia um na sua casa… talvez ainda consiga reproduzi-lo depois de tantos anos.

E se conseguir, ensine-o aos seus filhos.

Porque um dia poderão estar no meio de uma multidão e ouvir aquele som… e reconhecer imediatamente alguém que amam.

Tal como nós reconhecíamos os nossos pais, quando ainda bastava um assobio para nos dizerem que eram oito da noite… e que estava na hora de ir jantar.

Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor