AJUSTANDO CONTAS

Vivemos um tempo de traiçoeiros ajustes de contas e a desinformação instalada gera ambientes favoráveis a que tais indignidades pareçam virtudes. Uma desinformação muitas vezes consolidada pela falta de pequenos procedimentos que parecem pouco importantes mas potenciam a mentira.

Quem e quando escreveu (ou disse) isso? Esta simples pergunta, este procedimento deve ser quase automático na hora de consumir informação cuja autoria e data da notícia estão omissas. Muitos de nós fomos já aliciados para a leitura de notícias que julgamos ser novidade mas são apenas repetições de notícias ou de mentiras de há anos apresentadas como se fossem do dia.

Este tempo de disseminação desinformativa é propício ao aparecimento, nomeadamente nas mais modernas plataformas digitais de comunicação, de uma espécie de novo riquismo intelectual que se afirma no sistemático achincalhamento e humilhação dos outros, comportamentos típicos em ajustes de contas.

Quando as liberdades políticas não são acompanhadas de vantagens sociais para todos, as consciências social e cívica tardam a consolidar-se. Isto agrava-se quando até os modelos universitários de formação privilegiam fornadas de licenciados que são uma espécie de proletariado intelectual, semi-analfabeto, tanto no aspecto técnico e cultural como no aspecto social, sacrificados às necessidades de especialização dos mercados. Este é aliás o modelo dos cursos superiores em vigor no chamado acordo europeu de Bolonha, menos humanista e menos “literaturalizado” do que o anterior.

Cursos desenhados, recorde-se, mais em função das necessidades dos mercados na chamada modernidade da livre-troca e da moeda única do que em função das necessidades dos Estados Providência, sempre denegridos pelos populismos que inebriam as grandes massas e são o ambiente dos universos onde pulula a desinformação. Desinformação ainda mais acentuada em momentos muito difíceis como são os que a pandemia ou a presente guerra na Europa nos fez e faz viver. Desinformação tantas vezes alimentada de pequenas e quase cirúrgicas inexactidões, às vezes só insinuadas, o que basta para alimentar este monstro que nos divide e que nos empurra para os braços de pequenas seitas úteis na disseminação das mentiras e dos ódios que lhes estão associados.

Júlio Roldão
Jornalista desde 1977, nasceu no Porto em 1953, estudou em Coimbra, onde passou, nos anos 70, pelo Teatro dos Estudantes e pelo Círculo de Artes Plásticas, tendo, em 1984, regressado ao Porto, onde vive.


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