ÁLAMO MENESES: UM PRESIDENTE CONTRA O TEMPO

Alexandra Manes

A zona central de Angra do Heroísmo foi inscrita na lista de Património da Humanidade da UNESCO, a 7 de dezembro de 1983. Talvez não seja necessário relembrar quem me lê deste facto, mas importa, em primeiro lugar, relembrar o presidente da Câmara Municipal, porque o mesmo teima em se esquecer.

Em segundo lugar relembrar a oposição que, também, tende a esquecer ou fazer-se esquecer deste facto, embora uma das suas vereadoras seja sub-diretora da Cultura (nem quero imaginar como seria se não estivesse por dentro da área).

Na verdade, para além de ser regularmente relembrado pelas pessoas que pela cidade verdadeiramente se interessam, Álamo Meneses, foi também chamado a terreiro, por mais do que uma vez, nos últimos anos, pelos piores motivos relacionados com essa classificação.

Tendo-se como um paladino da história da sua ilha e da sua cidade, a verdade é que publicamente Álamo Meneses em nada defendeu o seu património. Podemos recuar até à génese da sua carreira política, no primeiro governo de Carlos César, e não é possível contar pelos dedos das mãos exemplos concretos de ações que tenham beneficiado a história e o património cultural durante os seus sucessivos e perpétuos mandatos.

Talvez sejam problemas (de)formativos, dirão alguns. É que o professor Álamo é licenciado em Engenharia do Ambiente, e talvez fique confuso entre os conceitos de património ambiental e cultural. Talvez pudesse ser esse o caso, não fossem os sucessivos atentados ambientais de que é vítima a baía de Angra do Heroísmo e a sua respetiva zona balnear, entre tantos outros exemplos que aqui poderiam ser apresentados.

Há poucos dias, enquanto folheava um suplemento sobre Cultura, deparei-me com uma peça de quatro páginas, onde se destacava a inauguração de um complexo de termas romanas, perto de Chaves. Esse conjunto de ruínas, depois de devidamente estudadas e valorizadas pelos projetos de recuperação patrimonial, visam dar lugar a um dos maiores e mais importantes parques arqueológicos da Península Ibérica. Trata-se, portanto, de um dos maiores ativos culturais, sociais e financeiros para aquela região, com uma elevada estimativa de pessoas a usufruir daquela Cultura, já no próximo ano de 2022.

Dei por mim a pensar na filosofia do presidente de Angra do Heroísmo, que teria certamente olhado para aquele complexo de ruínas patrimoniais e as desprezado, queixando-se dos atrasos que iam trazer à sua obra de betão armado e pilares esculpidos sobre as ossadas dos seus antepassados.

Dei por mim a pensar nas palavras que proferira, sobre a já malfadada empreitada do Mercado Municipal, onde se lamentava de uma queixa que alegava desconhecer. Sim, porque o presidente Álamo queixou-se de ter sido feita uma queixa, mas disse não saber o que dizia a mesma, e, no entanto, já sabia que era uma “perda de tempo”. Uma verdadeira perda de tempo, sem dúvida, se pensarmos no tempo e na memória que se irá perder, se a obra do Mercado Municipal de Angra do Heroísmo avançar sem o cuidado patrimonial que merece.

Também a oposição finge desconhecer a forma como o atual projeto para o Mercado Municipal desrespeita todo este património, nem tão pouco revelam interesse pelo mesmo. Património? Esta coisa que cria condicionantes ao populismo. Por sinal, o património serviu mesmo foi para que fosse feita mais uma nomeação para a ex-candidata da coligação à autarquia de Angra do Heroísmo e atual vereadora, Sandra Garcia.

A zona central de Angra do Heroísmo foi inscrita na lista de Património da Humanidade da UNESCO há 38 anos. Pelo que parece, no que depender do presidente, não irá aguentar até ao fim deste seu último mandato contra o património cultural de Angra. Cabe-nos a nós combater e impedir o desprezo demonstrado pela sua própria cidade e não permitir que se apague um passado centenário em nome do progresso de uma cidade vazia.

Alexandra Manes
Deputada pelo BE à ALRAA

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