NUNO ROLO: “COLOCAR AS PESSOAS NO CENTRO DA DEMOCRACIA E DAS DECISÕES QUE REALMENTE AS AFETAM”

Para Nuno Rolo, cabeça de lista do partido LIVRE pela ilha Terceira às próximas eleições legislativas dos Açores, a democracia não pode ser vivida apenas de quatro em quatro anos, em tempo de eleições, e por isso, o partido defende a criação de uma Assembleia de Cidadãos para que sejam as pessoas a “decidirem sobre as matérias estruturantes que lhe dizem diretamente respeito”.

Nuno Rolo defende também uma aposta na economia circular, menos poluente e mais sustentável e o reforço do setor corporativo, incentivando as parcerias Pública/Cooperativas, incrementando o consumo de produtos locais, garantindo desse modo, que a riqueza gerada fique na Região.

Tal como nos outros sectores de atividade, para o Livre, a “Saúde não deve ser vista como um negócio”, pelo que o partido rejeita a casuística em relação ao serviço de radiologia do hospital da Terceira, defendendo a sua abertura, até porque “já houve investimento” que não deve ser desperdiçado.

Quanto à eventual construção de um terminal de cruzeiros na Praia da Vitória, Nuno Rolo considera que trata-se de um investimento que deverá ser “muito bem ponderado”, ao nível do impacte ambiental e do retorno económico, realçando, no entanto, que a decisão última deverá caber aos cidadãos.

Praia Expresso (PE) — Esta é a primeira vez que o LIVRE concorre às eleições Legislativas Regionais pela ilha Terceira. Quais são as metas do partido para estas legislativas?
Nuno Rolo (NR) — Um dos objetivos seria sem dúvida conseguir eleger, sabemos que a maior probabilidade para isso acontecer é através do círculo de compensação, mas como só estamos a concorrer por duas ilhas sabemos que irá ser complicado. Desta forma julgo que surge um outro objetivo, como entendemos que as nossas propostas são estruturantes e urgentes para que os Açores entrem numa rota de justiça social e de sustentabilidade económica, queremos com isso convencer mais pessoas a se juntarem a nós.

PE — Quais são as principais propostas da sua candidatura para a ilha Terceira?
NR — Para estas eleições optámos por não ser tão específicos, criámos um Manifesto com as principais medidas que pretendemos apresentar na Assembleia caso consigamos eleger, pois consideramos que o Parlamento Regional deve trabalhar para o desenvolvimento integral da Região e não de uma ilha em particular. No entanto se olharmos para as medidas podem verificar que são transversais e facilmente adaptadas a qualquer ilha.
Por exemplo defendemos mais incentivos para as cooperativas, por exemplo com Parcerias Público-Cooperativas (PPC), com isto garantimos que há uma maior aposta no que é local com o propósito de gerar e manter a riqueza dentro da região.
Defendemos um novo Plano de Gestão de Resíduos que permita uma maior reutilização e consequentemente a redução de produção de novos resíduos, uma verdadeira economia circular.
Ao nível da mobilidade, defendemos que é necessário rever o plano de transportes coletivos, desde rotas, horários, serem elétricos e gratuitos, para que estes possam ser cada vez mais uma opção em vez do automóvel particular, que é muitas vezes uma despesa muito pesada para algumas famílias.
E por último gostaria de destacar a criação de uma Assembleia de Cidadãos em que o objetivo é ter os próprios cidadãos a decidirem sobre as matérias estruturantes que lhe dizem diretamente respeito, como por exemplo avançar ou não com o cais de cruzeiro.

PE — Que avaliação faz do estado atual de desenvolvimento da ilha Terceira no contexto da economia regional. Entende que estão a ser exploradas todas as potencialidades da ilha?
NR —Quando temos pessoas sem habitação digna, sem um rendimento estável, com dificuldades graves de acesso a uma alimentação saudável, aos cuidados básicos de saúde e à educação e formação, obviamente que não podemos considerar que estão a ser exploradas todas as potencialidades da ilha e numa perspetiva de melhoria contínua há sempre algo que se pode fazer melhor. Além disso devemos também ter em atenção ao que se entende por explorar todas as potencialidades da ilha, uma vez que o excesso é precisamente o que tem levado à situação de declínio do nosso planeta e situação climática grave em que estamos. Portanto a Terceira e os Açores têm mais para dar, mas tem de ser de forma sustentável e por isso em vez do atual modelo económico, focado em privilegiar apenas o setor privado, fazendo com que, quem tem dinheiro é que tem os melhores acessos e em que a sede pelo lucro acaba por aprofundar ainda mais as diferenças sociais, empobrecendo algumas zonas em prol de outras, defendemos uma maior aposta no setor cooperativo uma vez que é aqui que vemos o fruto da união em prol de um bem comum e não do lucro.

PE — Em tempo de pandemia é inevitável falar de saúde. Como avalia a ação do Governo neste domínio? O que teria feito de forma diferente se fosse Governo? Quais as insuficiências do Serviço Regional de Saúde na ilha? Como as resolveria? E qual a posição da sua candidatura relativamente ao serviço de radioterapia no hospital da ilha Terceira?
NR — De um modo geral a ação foi positiva, temos de ter em conta que foi uma situação inesperada e desconhecida e que leva a uma constante reavaliação das ações à medida que se vai sabendo novas informações. Acho que na altura houve efetivamente uma maior preocupação com a população e com a sua saúde, esperemos que essa preocupação continue. Não é fácil dizer o que faria de diferente, no entanto há algo que o LIVRE tem defendido desde o início da pandemia, é que os apoios têm de ser injetados nas famílias e não apenas nas empresas e que não devem ser injetados sob a forma de créditos que irão fazer com que mais tarde apareçam os normais endividamentos e a sobrecarga de despesas.
Quanto às insuficiências do SRS na ilha acho que passam essencialmente pela falta de algumas valências que pudessem minimizar as deslocações de doentes para outras ilhas e até para o continente e também a falta de médicos de família, se todos os utentes tiverem médicos de família e um correto acompanhamento de cuidados primários, conseguiremos também garantir melhor atendimento hospitalar pois irá fazer uma melhor filtragem das idas ao Hospital.
Relativamente ao serviço de radioterapia, defendemos que a Saúde não é nem deve ser vista como um negócio e neste caso temos visto pelas declarações recentes que o número de doentes não justifica a abertura do serviço e isto é um princípio errado na Saúde, além disso já houve investimentos que caso não seja aberto o serviço estão a ser simplesmente jogados ao lixo, o que é algo a que a região não se pode dar ao luxo de fazer, gastos em coisas que depois ficam paradas.

PE — Boas acessibilidades são essenciais para o desenvolvimento de qualquer sector da atividade económica. Como vê as acessibilidades à ilha Terceira? No seu entender o que deve ser melhorado? E qual o entendimento da sua candidatura no que diz respeito à construção de um terminal de cruzeiros e navegação interilhas na Praia da Vitória?
NR — Sem dúvida que as acessibilidades são essenciais, por isso temos no nosso Manifesto medidas relacionadas essencialmente com a mobilidade intrailha. Pretendemos que a mesma seja suave, amiga do ambiente e gratuita. Achamos que deve ser possível e fácil para qualquer pessoa se deslocar no interior da sua ilha sem precisar de uma despesa adicional como um automóvel.
Relativamente à mobilidade interilhas é um pouco mais complicado de delinear medidas uma vez que os meios que temos são poluentes, mas atualmente é fundamental que a Terceira tenha ligações aéreas regulares e seria também interessante conseguir promover as viagens marítimas para a utilização diária e normal da população e não apenas numa perspetiva turística embora seja complicado em alguns cenários, seja pela dureza do mar em altura de inverno e também pela distância em muitos casos, daí o nosso foco ser a mobilidade interna.
No que diz respeito ao terminal de cruzeiros é um projeto que vem sendo falado há vários anos e que tem criado muitas expectativas nas pessoas. No entanto ao contrário da área da Saúde e também da Educação, este é um investimento que deve ser muito bem ponderado, quer no impacto ambiental que poderá trazer, mas também do ponto de vista financeiro. A sensação que tenho é que não é o turista de cruzeiro que traz dinheiro à ilha, pois gastam muito pouco uma vez que já têm tudo incluído no próprio cruzeiro, seria necessário primeiro perceber quantos destes turistas retornam à ilha por outras vias essas sim mais geradoras de riqueza, pois representam estadias e compras na ilha. No entanto percebo que utilizar um cais de carga para desembarque de turistas não seja o cartão de visita ideal, mas julgo que seria se calhar possível com um investimento mais reduzido criar uma zona de receção mais apelativa para os turistas.

PE — Nas últimas Regionais mais de metade (58,90%) dos eleitores inscritos no círculo eleitoral da Terceira não votaram. O que tem a dizer a estes eleitores em particular, para os levar a votar, e a todos, em geral, para os convencer a votar na lista que encabeça?
NR — Infelizmente este é um dos principais problemas da democracia hoje em dia e que a coloca em causa. As pessoas estão cada vez mais desligadas da política e não se revém nos políticos nem nos partidos e isso é algo que o LIVRE tem procurado mudar desde da sua fundação, trazer os cidadãos para mais perto da política e das decisões que são necessárias tomar, daí o nosso processo de primárias abertas para criar as listas e a nossa proposta para a criação de uma Assembleia Cidadã. Atualmente mesmo aqueles que votam, fazem com o sentimento de que o seu voto não é suficiente para mudar o sistema e que como apenas de 4 em 4 anos é que os partidos precisam dos votos é apenas nessa altura que surgem os discursos, investimentos e inaugurações para tentar ofuscar aquilo que foram 4 anos de vazio e de incumprimentos dos seus programas.
Desta forma o meu primeiro apelo é efetivamente ao voto, um voto consciente e de acordo com o que acreditam ser o melhor e mais alinhado com as vossas próprias ideias e agora sim um vota LIVRE, pois acreditamos que é possível colocar as pessoas no centro da democracia e das decisões que realmente as afetam.

© PE

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