ALEXANDRA MANES: POSIÇÃO GEOESTRATÉGICA DA TERCEIRA DEVE ESTAR AO SERVIÇO DA ECONOMIA

A cabeça de lista do Bloco de Esquerda pela ilha Terceira, Alexandra Manes, quer potenciar infraestruturas como a Base das Lajes e o porto comercial da Praia da Vitória para dar resposta às imensas lacunas da ilha, defendendo, a implementação de uma plataforma logística para a navegação aérea e marítima, potencialmente geradora de centenas de postos de trabalho. Quanto ao terminal de cruzeiros na Praia da Vitória, “essa é uma promessa que vai durar mais uns anos”, assegura a candidata bloquista, que aponta como prioridade a construção de um terminal de passageiros com as devidas condições para a navegação interilhas.

Praia Expresso (PE) — Nas últimas legislativas regionais, em 2016, o BE obteve na ilha Terceira 671 votos, 3,11%. Quais são as metas do partido para estas legislativas?
Alexandra Manes (AM) — O nosso objetivo é continuar a crescer e merecer cada vez mais o voto dos eleitores e eleitoras da Terceira e dos Açores. Relembro que nas últimas legislativas elegemos por São Miguel e pelo círculo regional de compensação.
Apesar de, no presente ato eleitoral, haver mais partidos a concorrer e isso poder dispersar os votos, estou certa de que as pessoas sabem o trabalho sério de verdadeira oposição que o BE tem feito a uma maioria socialista que sufoca e dificulta a aprovação de qualquer medida que faça realmente a diferença na vida das pessoas. Temos estado sempre ao lado das pessoas! Exemplo desta nossa posição é o caso dos despejos das famílias do Bairro de Santa Rita – uma situação que se arrastava há anos sem solução aparente, e à qual todos os partidos viravam as costas. Foi com o envolvimento do BE e da Catarina Martins – que se deslocou cá para conhecer a realidade e exercer pressão para se encontrar uma solução -, que finalmente o caso se resolveu, porque para as entidades locais e regionais, o assunto resolvia-se com o despejo e um apoio temporário às rendas.
No caso da contaminação, foi o BE a levar esta situação terrível à Assembleia da República alertando para o perigo de saúde pública que se vivia (e vive) na Terceira. Aliás, o BE encarou desde logo este problema de forma séria, tratando-o nas comissões certas e com propostas de medidas importantíssimas para o processo de descontaminação.
Não serve de nada gritar que está um povo a morrer na Terceira, para depois apresentar uma proposta que põe a participação de Portugal na NATO à frente da saúde das pessoas. Foi isso que fez o PSD. O Bloco não tem dúvidas: à frente de qualquer lugar da NATO, estão as pessoas, a sua vida e o ambiente. E é importante que as pessoas percebam isso. O preconceito ideológico e a postura de subserviência ao governo norte-americano pode ter atrasado em anos, o trabalho de descontaminação.

PE — Quais são as principais propostas da sua candidatura para a ilha Terceira?
AM — Temos propostas para todas as áreas, claro. Mas, assumo que a falta de emprego, a precariedade no emprego e a saúde me preocupam muito, mesmo muito.
Nunca é demais lembrar que vivemos na região mais pobre do país e que sem uma economia forte e robusta não se conseguirá alterar a realidade.
Temos de ter uma visão de futuro e, ao mesmo tempo, atender ao imediato, para atenuar as carências do momento.
Desde logo, e não me farto de repetir, é preciso potenciar, de uma vez por todas, as infraestruturas da base e do porto comercial da Praia da Vitória.
Essas suas infraestruturas representam uma das alavancas para a economia da Terceira. Não é admissível que uma ilha com tantas lacunas não aproveite a sua posição geoestratégica ao serviço da nossa economia. A implementação de uma plataforma logística para a navegação aérea e marítima pode contribuir para a criação de centenas de postos de trabalho.
Centenas! Agora, vemos a direita a aproximar-se desta ideia, no entanto, não são claros quanto à forma de o concretizar. Não podemos esquecer que, para a direita, a subserviência ao governo norte-americano pesa mais do que centenas de postos de trabalho para a nossa ilha.
No entanto, o PS, apesar de já ter anunciado muitas promessas para o porto, nunca concretizou e optou por permitir a privatização desta infra-estrutura por 75 anos. As pessoas, certamente, que sabem o que acontece com as privatizações. Temos o caso dos CTT, em que o objetivo deixou de ser servir bem a população, e passou a ser exclusivamente o lucro. Na Saúde, medidas para fixar médicos com vista a aumentar a resposta e diminuir as listas de espera, assim como abrir o centro de radioterapia.

PE — Que avaliação faz do estado atual de desenvolvimento da ilha Terceira no contexto da economia regional. Entende que estão a ser exploradas todas as potencialidades da ilha?
AM — A Terceira tem sido palco de muitas promessas e de grandes projetos, desde os céus aos mares, só que à terra nada se concretizou dentro daqueles que eram os planos iniciais. O AIR Centre, que inicialmente seria responsável pela criação de muitos postos de trabalho, não se cumpriu nos moldes previstos; o entreposto de GNL deve ter ficado estacionado na estação de serviço das autoestradas do mar; o Terceira Tech island, com todo os respeito pelas pessoas que lá se formam, é uma low-cost de formadores para empresas com implementação no continente.
A única exploração que existe é a dos trabalhadores que cada vez têm menos rendimentos, sem que o governo regional tenha uma estratégia de desenvolvimento económico para a ilha Terceira.
Não, não estão a ser aproveitadas as potencialidades da ilha, que, para o Bloco, estão no eixo porto da Praia da Vitória e aeroporto – como expliquei na resposta anterior.
A cultura, desde sempre é o “parente pobre” de qualquer orçamento. A ideia de que a cultura não gera emprego, não corresponde à realidade. Tem de haver um reforço acentuado na verba destinada à cultura que permita a fomentação das artes performativas; a profissionalização de artistas e de todos/as envolvidos/as.
Esta é uma ilha com um fortíssimo enraizamento cultural, com um património vastíssimo. Continuo sem entender porque tentam reproduzir modelos de turismo, quando têm tudo para captar um nicho de mercado próprio e que, acima de tudo, não é sazonal. Porque não se investe neste vasto património terrestre e subaquático? Porque não se tem uma ligação da arqueologia ao desenvolvimento de um projeto viável?

PE — Em tempo de pandemia é inevitável falar de saúde. Como avalia a ação do Governo neste domínio? O que teria feito de forma diferente se fosse Governo? Quais as insuficiências do Serviço Regional de Saúde nesta ilha? Como as resolveria? E qual a posição da sua candidatura relativamente ao serviço de radioterapia no hospital da ilha Terceira?
AM — Desde logo ocorre-me uma primeira resposta: nunca utilizaria o meu lugar de autoridade máxima da saúde para fins eleitorais e populistas. Eu encaro a política de forma séria e tenho muito respeito pelas pessoas.
Hoje conhecemos melhor os efeitos desta pandemia e a seriedade que representa em termos de saúde pública e as suas consequências em termos sociais e económicos.
Neste quadro, para uma situação inesperada e desconhecida, o governo regional trabalhou em linha com o praticado a nível nacional, com as necessárias adaptações que apesar das medidas duras foram decisivas para um controle com bons resultados para a população.
Não quero deixar de realçar a forma colaborante e atuante como a população assumiu este combate, que muito contribuiu até hoje para níveis pandémicos controláveis.
Podemos apontar muitas falhas ao Serviço Regional de Saúde, mas a principal, da qual derivam muitas outras falhas – como as longas listas de espera – é a falta de médicos.
O Bloco de Esquerda é o único partido que apresenta caminhos para atacar este problema. Lamento que vários partidos estejam a atacar esta proposta, sem que apresentem qualquer alternativa. Como sempre, vamos lutar para concretizar as nossas propostas, sem nos trocarmos por meias verdades em títulos de jornais.
Sobre a radioterapia a nossa posição tem vários anos.
Como podemos constatar pela posição da empresa privada que pratica este tratamento, o facto de não haver casuística, isto é número de doentes suficientes, não justifica este serviço na Terceira. E esta é lógica perversa do privado. Se não tem lucro, não vale a pena!
Ora, nos Açores, uma região arquipelágica, nesta como em outras áreas a casuística não pode ser um dado decisivo. O investimento foi feito, portanto que seja concretizado pelo hospital público, podendo inclusive ser criada uma sinergia entre hospitais, nesta resposta.

PE — Boas acessibilidades são essenciais para o desenvolvimento de qualquer sector da atividade económica. Como vê as acessibilidades à ilha Terceira? No seu entender o que deve ser melhorado? E qual o entendimento da sua candidatura no que diz respeito à construção de um terminal de cruzeiros e navegação interilhas na Praia da Vitória?
AM — Sim, as acessibilidades são essenciais. Ainda mais numa região como a nossa em que estamos separados por mar.
Existe, realmente, um problema nessa área. A Terceira tem vindo a perder o seu papel de centralidade.
Na verdade, aquilo a que temos assistido, a nível de transportes, é a uma balbúrdia, onde o que é hoje já não é amanhã e assim sucessivamente.
No entanto, é necessário salientar duas coisas: precisamos de uma SATA pública – que assegure a nossa mobilidade -; e que seja assegurado o transporte de mercadoria. No caso do transporte de carga o BE, quer um estudo global que nos mostre qual a melhor opção.
Queremos uma SATA pública porque não podemos ficar dependentes de companhias privadas. É bom relembrar que companhias privadas voam para onde têm lucro ou para onde lhes sejam dados milhões (como os mais de 3 milhões dados à Ryanair). No dia em que não lhes for assegurado o lucro, deixam simplesmente de realizar a rota.
Por outro lado, temos a noção clara de que uma base militar dificulta a procura, pois as companhias não estão para esperar o “ok” para aterrar.
E esta questão leva-me ao terminal de cruzeiros. Vejamos: qual é o local para a sua construção? O que disse Azeredo Lopes em relação a esse projeto? Não se pode “beliscar” as relações diplomáticas, logo, mais uma vez, está sujeito ao escrutínio da indústria bélica americana.
Essa é uma promessa que vai durar mais uns anos. Temos, sim, que investir na navegação inter ilhas e ter um terminal de passageiros em condições. Esta deve ser uma prioridade, pois todos anos são milhares de pessoas que chegam à ilha via marítima e se deparam com aquela falta de condições.
Mas, os transportes terrestres também têm muita importância. Desde já, para as pessoas que não têm viatura própria e precisam de se deslocar e para a imagem que se dá para quem nos visita e procura uma rede de transportes públicos que lhes permita conhecer a ilha, sem que fiquem sem transporte às 19:00. Há muito a alterar. E, voltando ao terminal de passageiros, ficamos logo mal quando vemos pessoas a arrastarem malas até ao centro da cidade da Praia da Vitória.

PE — Nas últimas Regionais mais de metade (58,90%) dos eleitores inscritos no círculo eleitoral da Terceira não votaram. O que tem a dizer a estes eleitores em particular, para os levar a votar, e a todos, em geral, para os convencer a votar na lista que encabeça?
AM — A abstenção preocupa-me muito. É um perigo para a democracia e favorece a quem está no poder.
Aliás, o PS só tem a ganhar com a abstenção. Neste tempo de autonomia, só presenciamos alternâncias entre PSD e PS, logo existe muito a ideia da bipartidarização.
É importante que as pessoas percebam que o poder está nas suas mãos. Se consideram que está mal, votem! É importante porque, ao contrário do que se diz, não são todos iguais. Há pessoas que levam a política muito a sério e não como uma forma de carreira. Todas e todos nós, na lista, temos o nosso trabalho, as nossas vidas.
Eu tenho o meu trabalho numa IPSS. A questão que me diferencia de algumas outras pessoas é que eu vejo a minha passagem na política como um ato de cidadania e como uma forma de contribuir para a mudança que tanto necessitamos.
Nas vossas mãos está o poder de mudar! Não podemos continuar a viver sob a prepotência de uma maioria que só se lembra das pessoas a dois meses de eleições.
Não são todos iguais! No dia 25 de outubro vote na mudança, e para votar na mudança tem que ser no BE porque temos novas politicas para um futuro melhor.

© PE

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