MUSICAL AÇORES DESPEDIU-SE DA PRAIA DA RIVIERA HÁ 43 ANOS

Neste dia, em 1977, arrancava, na praia da Riviera, na então vila da Praia da Vitória, aquela que seria a segunda e última edição do festival “Musical Açores”, um dos primeiros festivais musicais de verão do Portugal recentemente liberto das amarras do Estado Novo. O “Musical Açores” arrancara um ano antes, em 1976, transformando por duas noites (sexta e sábado) a lendária praia da Riviera numa espécie de “Woodstock” açoriano, num furioso grito de liberdade ao som do “Rock and Rool”.

A primeira edição – Musical Açores 76 – contou apenas com bandas locais e apesar de organizada por um grupo de inexperientes jovens entusiastas, revelou-se um enorme sucesso pelas multidões que a ela rumaram. O mote estava dado. No ano seguinte, no espírito destes jovens sonhadores, era preciso ir mais além.

Nesse sentido e também na sequência de várias felizes coincidências, há a possibilidade de trazer bandas do continente e até dos Estados Unidos da América. Dotados de uma visão que claramente escapou aos então responsáveis públicos, envidaram esforços para trazer até cá a comunicação social especializada, conscientes que a promoção do festival seria essencial para o afirmar como um importante cartaz no que hoje designamos de turismo festivaleiro.

Decorrente dessa estratégia, a revista “Música & Som”, hoje extinta, fez deslocar à ilha Terceira uma equipa de reportagem para cobrir o acontecimento, a qual veio a ser publicada na edição n.º 16, de 01 de outubro desse mesmo ano.

Abaixo, num trabalho de recolha de Carlos Aguiar, apresentamos a reportagem sob a forma de “crónica teatral” do jornalista Bernardo Brito e Cunha sobre o saudoso Musical Açores 77, a qual é complementada com uma entrevista à banda norte-americana “Atlantys” que poderá ler aqui.

INTRODUÇÃO

ALGUNS dos que me estão a ler, desejariam que esta crónica açoriana fosse, impecavelmente, um alinhar de factos, de números, de nomes, de grupos, de classificações, um enunciar os erros-defeitos ou as qualidades deste Festival. Talvez esses achassem que assim é que devia ser — e talvez tenham razão. Mas as circunstâncias, ou melhor, o deus ex machina — uma vez que me parece que isto vai ter um pouco de peça de teatro — fez com que tudo saísse do avesso.

Este relato, que por vezes roçará a tragédia, outras a farsa, ou a comédia, obedecerá — tanto quanto a minha memória o permitir — a uma (certa) ordem cronológica: quer isto dizer que, para não vos baralhar muito, começarei pelo princípio. Alguém que faça o favor de bater as pancadas de Molière porque, minhas senhoras e meus senhores, respeitável público em geral, meninas e meninos, a função vai começar!

1.º ACTO

Entra em cena o Emanuel, daqui para a frente referenciado como «o tipo da farmácia», por razões que só dizem respeito ao autor do texto e a mais ninguém. O «tipo da farmácia» entrará em cena três vezes: da primeira, para me dizer com um sorriso cativante que o Musical Açores 77 vai ser uma coisa de arromba; da segunda, para eu assinar um papel segundo o qual, se o avião caísse, eu não tinha direito nem a uma escova dos dentes nova. E eu, que gosto muito, daquela que tenho, velha e tudo, assinei. E aparecerá pela última vez, de ponto em azul e lenço ao pescoço, no aeroporto, para me reconfortar com duas palmadas nas costas e dizer que isto de aviões militares é tão seguro como passear no corredor de minha casa. Mas, entre a segunda e a terceira aparição, outras coisas se passaram e outros personagens fizeram a sua entrada neste palco que se viria a verificar ser multifacetado. Assim, temos o glorioso fotógrafo da “M&S”, Lobo Pimentel (nos Açores passaria a ser, para os mais íntimos, simplesmente Júlio) que deve ter chegado ao aeroporto com mais de duas horas de antecedência, que ao fim de um quarto de hora estava com uma fome devoradora e, pouco depois, com um nervoso dos diabos. Grande Júlio!, Que ao longo daqueles dias me atiraria, de vez em quando e como convinha ao papel, um sorridente «também tu, Bernardo!» Grande Júlio, a quem ficamos a dever os cartazes desta peça — que é como quem diz, as fotografias. Entretanto, enquanto o Lobo Pimentel passeia incansavelmente a sua fome e o seu nervoso da esquerda alta para a direita baixa, novos personagens vão surgindo. Caras meias de sono ainda, meias de desconfiança perante aquele hangar frio, aquele espaço que não é, realmente, o delas — um espaço que é muito mais pertença dos figurantes que, de uniformes vários, esperam com a calma feita pelas experiências anteriores. E, portanto, extremamente fácil a um espectador não muito atento, distinguir quem é quem e ao que vai. Algumas caras conhecidas. Mas eu e o Lobo Pimentel devíamos ter carimbado na testa um “M&S” qualquer que (parecia) assustava as pessoas. Não fosse a chegada do António Amaral Pais, e para ali teríamos ficado, quase que sei lá o quê.

Agrupamento “ATLANTYS” em plena atuação

O Lobo Pimentel – a quem, por facilidade, passarei a designar pôr LP que tem muito de música e de som e, quando chegar a altura, passará então a Júlio – refugia-se numa espécie de unicidade (?), de fidelidade (como eu lhe viria a chamar mais tarde) para comigo verdadeiramente tocantes.

Convém fazer aqui, antes que seja tarde, uma pequena advertência: é que eu «embarcara» nesta coisa do Musical Açores sem fé nenhuma.

Para que conste e, sobretudo, para que (espero) lá mais para o fim da peça, se perceba como as pessoas podem estar enganadas. E eu estava, efetivamente.

Uma certa esperança despertou-nos então um pouco era a perspetiva de nos despacharmos da bagagem.

O LP deve ter sido o primeiro a atacar as balanças, talvez com medo de deixar uma mala em terra. O facto de começarem a pesar a bagagem, pareceu-nos significativo – era sinal que havia mesmo avião.

Os grupos eram, sem dúvida, os mais movimentados: transportavam quantidades de material que me pareceram perfeitamente incomportáveis fosse, para que avião fosse. Mas surpresa das surpresas! Apenas houve que limitar a quantidade de gelo que os Beatnicks, levavam para produzir fumo…

E por fim, lá acabámos por entrar para o avião. Que vos poderei contar de uma viagem de quatro horas? Que achei incrível que o cabo (seria? Isto de fardas, para mim, continua a ser aquela incompatibilidade) que fazia as vezes de hospedeira, fosse todo ele atenções, bolachas e bom-bons para, com uma americana (jovem), mas de todo em todo bastante desinteressante, enquanto todos nós, todos os outros, todo o resto se roía de fome? Talvez: ou, para não vos parecer mesquinho, que foi durante a viagem que o Amaral Pais começou a anunciar as coisas que não trouxera. Ou que, a meu lado, o LP dormitava de quando em vez. Tentei entusiasmá-lo (acordá-lo?) com a sugestão de uns códaques aéreos, mas ele respondia aquilo que repetiria mais tarde um sem número de vezes, a propósito das mais variadas coisas: «Oh filho! Farto de tirar códaques aéreos estou eu». Encaixei e pronto.

Mas tal como prometera «o tipo da farmácia», chegamos. Moídos a morrer de fome com uma grande dor no pescoço, mas chegamos. Que vos elucide que o Musical Açores 77 teria lugar a 13 e 14 de Agosto e que tudo isto se passou na véspera – a 12, para os que forem avessos à aritmética.

BEATNICKS: da Amadora para os Açores (Lena e Ramiro)

À nossa espera, vários elementos afetos à Organização. Não havia banda, nem discursos, nem flores (houve quem protestasse quanto a este ponto, mas só mais tarde se poderia resolver o problema), mas havia em contrapartida, um cortejo de carros para nos transportar. E lá estava, sobressaindo – como sempre – do resto da organização, o Parreira. E vocês, que não conhecem o Parreira, nem sabem o que estão a perder. O Parreira poderia ser o ponto desta peça – porque o era efetivamente.

Para este último quadro, o cenário pode representar uma quantidade (grande) de aviões americanos. Desembarcar na Terceira é, de certo modo desembarcar na América – mas nem nacionalizada, nem nossa.

O Amaral Pais que vos conte o que custa entrar na Base.

2.º ACTO

Arrumamo-nos nos carros e, depois de explicarmos ao Parreira as nossas carências gástricas, ele concordou em absoluto, é que íamos deixar primeiro a tralha e que íamos almoçar logo de seguida. Foi só então que soubemos (o «tipo da farmácia» não tinha sido capaz de me elucidar quanto a esse aspeto) onde iríamos (alguns) passar as noites: num antigo seminário de Padres Holandeses, perto da Praia da Vitória. Uma certa surpresa nalguns rostos, mas o que é verdade é que quase toda a gente aceitou o seminário: talvez fosse da fome, não sei. Ou talvez — para aqui sim, sou capaz de me inclinar — fosse porque, em poucos minutos, quase toda a gente fora capaz de compreender que a Organização trabalhava em condições extremamente adversas e que estava a fazer, literalmente, o impossível. Apesar do que, durante todo o tempo, não deixou de pedir continuamente desculpas e de garantir que para o ano vai ser muito melhor. Ah, Parreira! Se tu soubesses o que tudo aquilo foi para nós! Se tu soubesses que grande parte dos que lá fomos estamos quase a morrer por voltar e que, outros ainda (e aqui entro eu) estão a pensar se não será possível abandonar tudo isto e ir para a Praia da Vitória fazer o que quer que seja… Foi então a vez de conhecermos o restaurante do Armandinho, contra o qual clamaríamos imprecações contínuas mas que, no fundo, ficámos a adorar. Nessa tarde de sexta-feira muitos poucos lhe puseram, defeitos — a fome era negra… E pouco ligámos ao calor, à falta disto ou daquilo.

Nessa tarde, embarquei com um pequeno grupo até à praia. E apesar dos avisos enérgicos do fiel LP («Oh filho, tu lembra-te que estás a fazer a digestão!!!»), mergulhei. Pois se nunca ligara a esses problemas, não era naquele dia, decididamente, que o iria começar a fazer! Foi, aliás, durante essa excursão balnear, que tomei conhecimento que um dos melhores remédios para as insónias, são biscoitos. Aqui fica, para quem já tiver experimentado tudo.

BEATNICKS: Casanova na guitarra

Entretanto, a Organização lutava com os problemas habituais: e na altura em que eu mergulhei, estavam eles ainda a montar o palco. Para lá dos outros, dos problemas grandes: conseguir a garantia de que não haveria cortes de eletricidade, na zona da Praia da Riviera — a eletricidade é racionada pelas diversas partes da ilha —, problemas de dinheiro. Principalmente problemas de dinheiro: algum dos que teve a paciência para chegar até aqui, acreditará que a Delegação Regional de Turismo deu um subsídio de cinco mil escudos? Subsídio, não: cinco contos para um festival que atraiu cerca de oito mil pessoas até àquela zona, só merece o nome de «esmola». Tal como é extremamente lamentável a atitude da Capitania, que exigiu Esc. 1.500 pelo «aluguer» da praia… E qualquer das entidades sabia que o Festival seria gratuito. Será, portanto, de realçar que o Comércio de Praia da Vitória, ao contribuir com Esc. 20.000, foi capaz de ver aquilo que as entidades oficiais não descortinaram: que este Festival Açores 77 era uma potencial fonte de receita, era um cartaz turístico de se lhe tirar o chapéu. Daqui faço a proposta: que os comerciantes passem a ocupar os lugares da Delegação Regional de Turismo e da Capitania do Porto, e que os funcionários destas passem a aviar ao balcão.

3.º ACTO

O terceiro acto começa com uma imagem — que se viria a repetir quase doentiamente — a solo: António Amaral Pais tem neste acto o primeiro gesto do show que levaria a cabo (e paralelamente) durante todo o Musical Açores. Tão fácil como isto — AAP encontrou, na berma da estrada que ligava a praia ao seminário, uma lata (vazia) de cerveja. Achou uma maravilha: e, a partir daí, começou a coleção. E, segundo dizem as más línguas (e também aquelas que lhe pegaram no gesto e que não conseguiram arranjar um exemplar de todas as latas…), parece que AAP trouxe para Lisboa um carregamento de 21 latas. Vazias, repito.

Os “ARANHA”: Domingos (voz) e Luís (baixo)

Entretanto, o Parreira levar-nos-ia, à noite, a visitar o local do crime para tomarmos conhecimento do sítio e também para concluirmos que, para véspera, as coisas estavam um pouco atrasadas. Mas o Parreira continuava com a ótima disposição que o caracterizaria, gritando várias vezes aquilo que se tornaria assim a modos que o seu slogan, «tem música!!» E viria, efetivamente, a tê-la. (É possível que neste momento se interroguem acerca das razões que me levam a chegar ao terceiro acto sem que nada de visivelmente excitante se tenha passado. Mas, se conseguiram aguentar até aqui, serão recompensados: é agora que isto vai começar a aquecer). Sábado. Primeiro dia de festival. E se vos contei tudo aquilo que ficou atrás (bem como aquilo que ainda se seguirá), foi pela única razão de também todas aquelas pequenas coisas terem sido música, por todas elas terem influenciado os músicos que atuaram. Esta, pelo menos, a maneira como eu vejo as coisas. Por exemplo, o dia começou com uma querela entre músicos e que viria a afetar as relações subsequentes. O grupo CAIRO não gostou de ter sido acordado por engano e, talvez consequência desse acto (não premeditado) o grupo chegou à conclusão de que o seminário não reunia as condições mínimas e mudou-se, a expensas suas, ninguém sabe para onde. De resto, o grupo nem sequer atuaria — primeiro por não ter material à altura e, quando o teve, porque foi considerada tardia a hora. Foi proposto ao grupo atuar no segundo dia, mas tal não viria a acontecer.

Os “ARANHA”: Carlos (teclas) e Luís (Guitarra)

Em relação à ilha Terceira, tenho recordações ótimas — e outras menos boas. Foi o que aconteceu, por exemplo, durante a tarde de sábado, em que alguns de nós fomos assistir a uma tourada à corda. E eu, por muito que viva (como soe dizer-se), nunca hei-de esquecer aquele touro que mistura patas com corda e cai, de lado, com um ruído surdo, extremamente forte. Suficiente para não o esquecer tão depressa. À noite, o Festival começaria com o atraso que a véspera deixara prever. Mas a circunstância é quase uma regra em festivais deste género e só teve consequências mais adversas porque o anticiclone começou a funcionar e a chuva começou a cair. Aí, muita gente se levantou da areia, pegou no seu cobertor e desandou. Extremamente oportuna a intervenção de um elemento que se encontrava no palco e que gritou, «Não vamos deixar a chuva vencer este festival!». Creio que isto deve ter funcionado para muita gente, porque muita gente parou, olhou hesitante o cobertor húmido, e se tornou a sentar. Para vosso descanso, a Imprensa tinha sido fornecida também com cobertores. Pelo Parreira, como penso que seria escusado dizer. Musicalmente, as atenções estavam centradas no grupo ATLANTYS que viera, cheio de requintes (?) lá das américas: seria, aliás, assim que passariam a ser designados. No entanto, os ATLANTYS apenas foram capazes de demonstrar que vinham carregados de artifícios, de luzes, de fumos: e foi um pouco desse fumo que o público acabou por receber. Mas, quanto a esses, remete-os para a entrevista que o AAP fez ao leader (quase que poderia dizer «dono») do grupo, o seu vocalista Mare Oennis. A música, a melhor de toda que por aquela Terceira se ouviu, foi fornecida pelos dois grupos que, da Amadora e de Odivelas, até lá se deslocaram: os BEATNICKS é os ARANHA. E destes, pessoalmente o último dos dois foi uma surpresa muito agradável — contra a opinião, largamente generalizada, de que os BEATNICKS tinham sido melhores: mas já estou habituado…

Ficaria mal comigo mesmo se não falasse aqui no duo LICÍNIO–MORENO, não porque tenham sido bons, mas pelo empenho, pela aplicação, pelo seu (deles) narcisismo. Um duo que passava todo o seu tempo no Seminário: a ensaiar. Suspeito que sei de cor algumas das suas canções.

Lucínio e Moreno: a aplicação, o empenho…

Mas, mais do que a música, interessa aqui dizer que fazer um festival destes nos Açores, sabendo a Organização à partida que iria ter prejuízo, é um coisa que não é muito vulgar. Os responsáveis, os representantes oficiais do turismo, por exemplo, tiveram aquela estreiteza de visão que, infelizmente, nos parece caracterizar. Mas enquanto o Parreira existir — e o Duarte Nuno, e o Liberal, e os outros — o Musical Açores será uma coisa que aqui, no Continente, não poderá nunca ser imitado. Por isso se dizia que «Parreira há só um: o da Terceira e mais nenhum!»

E vai daqui (mais) um grande abraço para a Organização e, que me perdoem os restantes, muito especialmente para esse pequeno-grande Parreira: o único homem que eu conheço que parece ter o dom da ubiquidade.

E que por isso, TEM MÚUUUSICA!!!!!

Bernardo Brito e Cunha
in “Música&Som” n.º 16, de 01 de outubro de 1977
Imagens: António Amaral Pais/M&S
Pesquisa e Recolha: Carlos Aguiar/PE

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