ATLANTYS: ROCK AND ROLL COM APELIDO PORTUGUÊS

ATLANTYS é o seu nome. A sua origem é açoriana. A nacionalidade, americana. Os apelidos, portugueses. Quem são, de que se trata, que música tocam, eis algumas questões que colocamos ao vocalista e leader Mare Dennis, um jovem professor do curso bilingue (português-inglês) de Fall River, Massachusetts, Estados Unidos.

A actuação do grupo Atlantys no Musical-Açores 77 chamou a atenção dos presentes — músicos, jornalistas e espectadores — pela espetacularidade da sua exibição, que pretendeu pôr o acento tónico no espetáculo propriamente dito, entendido como complemento da parte musical. Interpretando as suas músicas na linha do mais rigoroso rock and roll, digamos mesmo do hard rock, os Atlantys lograram conseguir com a sua atuação uma extraordinária adesão dos presentes na praia da Riviera, especialmente das largas dezenas de jovens americanos em serviço na vizinha Base das Lajes, sensíveis às «palavras de ordem» do vocalista Marc Dennis, evocativas de um tal «America Super-Power, lsn’t It?» e outros lugares-comuns do género. Durante a longa conversa entre Marc Dennis, Bernardo Brito e Cunha e eu próprio, foram abordados estes e outros temas da música e do seu enquadramento no Festival, cuja importância assinalamos, até porque os Atlantys constituem um resultado híbrido e singular de duas culturas particularmente distantes — a portuguesa das ilhas e a americana — que utiliza o rock como linguagem e comunicação.

ENTREVISTA POR ANTÓNIO AMARAL PAIS

Quais os nomes dos elementos, e que instrumentos tocam?
Actualmente, o grupo é formado por Johnny de Melo, bateria, St Martin, organista, John de Melo, guitarra baixo, Harry Pacheco é o guitarra solo e eu, Marc Dennis, sou o vocalista.
Estes os elementos que compõem o grupo há mais ou menos um ano. Mas o grupo já existia antes, o grupo começou quando eu me juntei na guitarra e na bateria. Nessa altura eu tocava guitarra acompanhamento, mas não deu certo porque eu não podia tocar e cantar ao mesmo tempo. E arranjámos outro tipo para tocar e eu fiquei apenas a cantar.

Como grupo, qual é a Vossa atividade? Com que regularidade dão espetáculos?
Tocamos todos os fins de semana, principalmente em bailes de teenagers e tocamos, nessas alturas, músicas para dançar. Mas preferimos a música que vocês ouviram, mais barulhenta…

Quais são os grupos que vocês mais ouvem, qual a música que gostam de ouvir?
Por mim, neste momento, são os Queen. Gosto muito do guitarra dos Santana, do baterista dos Grand Funk, em matéria de baixo, tudo o que estiver mais perto da música negra e gosto muito do organista dos Yes. Em geral, ouvimos e tocamos mais música tipo «hard-rock», mas aquele «hard-rock» que é mais popular.

Achas que a vossa origem açoriana influencia a música que fazem?
Influencia as músicas que eu escrevo. Têm uma certa influência açoriana, visto que nasci em S. Miguel.

Vocês são todos açorianos?
Não, eles são todos americanos, nasceram lá, mas todos têm ou um pai ou um avô que é dos Açores.

E acham que isso influencia a música?
Não muito. Todos eles querem desligar-se daquela coisa que é ser «português» ou ser «açoriano». Acho que a única música que reflete essa influência, é aquela que eu faço, porque tem uma coisa que a música dos outros não tem, que é um certo sabor a saudade, a tristeza.

Tu não escreves nunca em português, pois não?
Não, escrevo sempre em inglês.

Mas vocês sentem que o rock’n’roll é a vossa música?
É, exato.

Mas se escrevesses algumas canções em português, achas que seria impossível cantá-las na América?
Não, não seria impossível. Por acaso, eu tenho um disco em português. Primeiro foi feito em inglês, tive um bom sucesso com ele e depois, como há muitos portugueses na Nova Inglaterra, começaram a aparecer pedidos para eu gravar o disco em português. E acabei por gravar, mais por brincadeira: mas os discos chegaram e em 3 dias esgotou-se a edição de 1000 discos, mas é um disco puramente comercial e eu não sinto que seja aquele o tipo de música que o grupo está a fazer: mas foi uma coisa que o público pediu, e nós fizemos.

Porque é que estando a tocar nos Açores, tu te dirigiste mais especialmente aos americanos?
Eu sabia que a nossa música era de americanos, que estavam lá muitos americanos e penso que era aquilo que eles queriam ouvir.
Mas os portugueses também…
Mas os portugueses, aqui, eu notei… se os americanos forem para baixo, eles vão para baixo; se os americanos forem para cima, eles vão para cima…

O rock’n’roll é uma linguagem universal, não é só americana. Mas vocês dirigiram-se diretamente aos americanos: isso tem algum significado específico?
Quando eu falei, estava a falar para todos. É verdade que falei em inglês, que disse poucas palavras em português… mas havia ali muita gente que está fora de casa há muito tempo, e penso que efes gostariam, de algum modo, de ser melancólicos: e foi o que eu fiz.

Isso era uma tentativa de comprar o público?
Bom, quando vamos para o palco, fazemos tudo o que podemos para comprar ou atrair…

Mas há limites, ou não? Parece–me que o público terá de ser atraído pela música que vocês fazem: é que pensar «Vamos tocar aos Açores; os Açores são a base americana; logo, vamos falar para os americanos que estão longe de casa há tanto tempo», é um princípio que está errado.
Não havia qualquer intenção de pôr os Açorianos para trás, até porque estavam lá mais açorianos do que americanos, e não eram só os americanos que reagiam à nossa música. Até referi que grande parte das pessoas da Terceira falam inglês e, portanto, também falei para esses.

Mas podias ter dito, «Nós temos raízes açorianas e vamos falar em português». Terias, talvez, atraído mais público…
Bom, mas eu falo melhor inglês do que português — talvez não muito melhor, mas… Se falasse em português, corria o risco de dar muito mais erros: falar em inglês foi, também, uma forma de defesa.

Sabes que, se se quiser, podemos dar ao triângulo Açores-América–Portugal um tom político. Como sabes, há movimentos para a autonomia dos Açores: vocês pretenderam dar um tom político à vossa atuação?
Várias pessoas me perguntaram qual a minha opinião sobre a FLA a tudo isso. Eu respondi que, não vivendo aqui, não sabia qual era a situação. Mas se a maior parte do povo quer a autonomia, muito bem. Mas se forem apenas algumas pessoas (às vezes, até podem ser duas ou três pessoas ricas), então acho que não está certo.

Porque é que não atuaram no 1.° dia do Festival?
Quando nós viemos para os Açores, não tínhamos intenções de vir à Terceira, e nem sequer sabíamos que havia este Festival. Em S. Miguel, virias pessoas pediram para virmos cá: mas nós estávamos contratados pelo Sr. Melo Bento, e era ele quem teria de decidir: e acabámos por vir. Nessa altura, perguntámos como era a aparelhagem e disseram-nos que tinham tudo para a atuação — e não trouxemos o nosso material. Quando aqui chegámos, vimos que a aparelhagem era fraca e tentámos ir buscar a nossa, mas já não foi a tempo. Decidimos não tocar no sábado, e esperar que viesse a nossa aparelhagem, o que só aconteceu no domingo. De resto, fazia-nos multa falta o nosso sistema de luzes.

Vocês têm um repertório fixo para todos os espetáculos?
Temos um repertório bastante grande e variado — temos material para fazer espetáculos de 6 horas, o que já tem acontecido. Temos, inclusivamente, tocado o «Bailinho da Madeira»…
Mas primeiro vejo que espécie de público está presente: se o público tiver uma idade média de 40 anos, o espetáculo será diferente daquele que faríamos se tivesse 15. Por Isso, quando entrei no palco, só anunciei as duas primeiras canções, para ver como o público reagira: e só depois decidi o que faríamos a seguir.

Vocês têm uma certa preocupação com o «stage-show»…
Eu acho que num espetáculo onde está público a assistir, se lhe tem de dar qualquer coisa mais do que a simples música. Temos que dar a esse público um espetáculo mais completo, porque a música é uma coisa que ele pode ter, com imensa qualidade, num disco. O espetáculo terá de ser verdadeiramente «espetáculo», para não correr o risco de se tornar num disco. Damos, efetivamente, importância ao nosso «stage-show»: no seu conjunto, a nossa atuação poderia até parecer agressiva, mas tudo aquilo é, no fundo, um «escape»; aquilo que viram não é uma realidade.

E o acidente da bomba de fumo?
O John sabia que aquilo estava ali e que não devia estar perto, embora a culpa também tenha sido um pouco minha. É que os fios são ligados em curto-circuito para produzir a faísca que incendiará a pólvora: aconteceu que os fios se desligaram e foi feita uma ligação de emergência, comandada pelo organista quando eu desse o sinal e, quando eu fiz, deviria ter avisado antes o John. Felizmente não teve consequências graves.

Quais são os vossos projetos?
Acabámos de gravar um LP, na etiqueta Atlantys (que é minha), e todas as músicas são minhas. O que estamos a tentar agora, é fazer com que uma das grandes companhias comprem o disco e o distribuam. O disco foi totalmente pago por nós e, até agora, todos os que fizemos nesta base, têm coberto as despesas. Os discos têm tido saída, principalmente na nossa zona da América, no Canadá e até em S. Miguel.

Porque não vão até ao Continente?
Não conhecemos lá ninguém, mas gostaríamos de ir tocar a Portugal. Faço tudo, desde que não tenha prejuízo: é que eu pago a cada elemento do grupo uma quantia fixa por cada atuação, receba ou não cachet.

Quais são as vossas profissões?
Eu sou professor de matemática e de Ciências Sociais. Todos os outros elementos do grupo são estudantes.

Entrevista: António Amaral Pais
in “Música&Som” n.º 16, de 01 de outubro de 1977
Imagens: António Amaral Pais/M&S
Pesquisa e Recolha: Carlos Aguiar/PE

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