“A REALIZAR-SE O SATA RALLY AÇORES É UMA AFRONTA AOS TERCEIRENSES”, DIZ JORGE GANÇO EM ENTREVISTA

Organizada pela página “Toiros D’Ouro”, realizou-se no passado sábado, 01 de agosto, junto ao tentadero dos Serviços Florestais, a primeira manifestação taurina que há memória na ilha Terceira.

Os manifestantes, para além de demonstrarem todo o seu apoio e defesa à tradição tauromáquica da ilha Terceira, reivindicavam a realização de touradas à corda nas festas tradicionais da ilha que ainda não foram canceladas.

Sobre esta manifestação e o impacto da mesma, Praia Expresso esteve à conversa com o seu promotor, Jorge Ganço, proprietário e administrador da página “Toiros D’Ouro”, conhecido aficionado e profundo conhecedor e defensor desta secular tradição terceirense.

“Primeiro objetivo foi plenamente conseguido”.

Praia Expresso (PE) — Que análise faz da manifestação taurina do passado sábado?
Jorge Ganço (JG) — Em termos globais penso que o primeiro objetivo foi plenamente conseguido. Ou seja, levar as pessoas a deslocarem-se ao local escolhido e aí manifestarem todo o seu apoio à causa tauromáquica, à nossa cultura e à nossa tradição.

“Quando se está verdadeiramente empenhado em defender uma causa, seja ela as touradas à corda ou outra qualquer, o local da manifestação é totalmente secundário”.

PE – A manifestação decorreu junto ao tentadero dos Serviços Florestais. Houve quem manifestasse o seu desacordo com o local escolhido por não ter a visibilidade que seria desejável. O que lhe levou a escolher este local?
JG – Qualquer que fosse o local escolhido nunca seria uma escolha consensual, haveria sempre quem preferisse outro local e não aquele. Mais importante que o local, o impacto de uma manifestação mede-se pelo número de pessoas que consegue congregar e não tanto com o local onde a mesma ocorra. Quando se está verdadeiramente empenhado em defender uma causa, seja ela as touradas à corda ou outra qualquer, o local da manifestação é totalmente secundário. Dito isto, a escolha pelo Tentadero da Florestal recaiu pela sua centralidade na ilha, já que as touradas são transversais a toda a ilha, não sendo uma tradição de apenas do concelho de Angra do Heroísmo ou da Praia da Vitória.

“Orgulhamo-nos de afirmar como o ‘pedacinho’ de Portugal mais aficionado, mas nesta manifestação não foi isto que transpareceu”.

PE — A manifestação teve a adesão que esperava ou ficou aquém?
JG — A adesão ficou claramente aquém daquilo que seriam as nossas expetativas. Muito sinceramente não consigo encontrar uma explicação para que não tenha havido uma maior participação. Somo apontados como uma ilha claramente taurina e orgulhamo-nos de afirmar como o “pedacinho” de Portugal mais aficionado, mas nesta manifestação não foi isto que transpareceu.
Já assisti a touradas com cerca de 5.000 pessoas, e perante as que lá estavam, eu pergunto, onde estavam as restantes pessoas que gostam de toiros? – Penso que face à nossa afición a adesão teria que ser obrigatoriamente muito mais expressiva, deveria lá estar o triplo ou o quadruple das pessoas que lá estavam.

“O representante do CHEGA falou aos manifestantes como qualquer outra força política presente teria falado se aceitasse o convite que lhe foi dirigido”.

PE – Um dos oradores foi um membro do partido CHEGA/Açores. Porque razão não falaram membros das outras forças políticas?

JG — Todas as forças políticas que defendem a causa taurina foram convidadas para comparecerem na manifestação, mas nenhuma delas recebeu um convite direto para falar aos manifestantes. Houve partidos que se fizeram representar, outros não. Na ocasião, os partidos que se fizeram representar foram convidados a dirigir uma palavra ao público, houve partidos que embora presentes decidiram não falar. O representante do CHEGA falou aos manifestantes como qualquer outra força política presente teria falado se aceitasse o convite que lhe foi dirigido.
Em termos de intervenções planeadas, apenas estava prevista uma breve introdução minha a agradecer a presença das pessoas e uma intervenção do Sr. Presidente da Assembleia Geral da Tertúlia Tauromáquica Praiense. Todas as restantes intervenções surgiram espontaneamente, através de convites formulados na ocasião, inclusive a do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo.

“Em junho, abri uma porta que depois não a fechei, apenas a adiei por algum tempo”.

PE – Embora se tenha feito representar, a Associação Regional dos Criadores de Toiros das Touradas à Corda não usou da palavra. Isto não enfraqueceu a manifestação?
JG — O que lhe posso dizer é que na minha opinião este tipo de manifestação teria outro impacto se fosse promovida pela Associação em conjunto com os dois grupos de forcados da ilha. Eu, em junho, abri uma porta que depois não a fechei, apenas a adiei por algum tempo…
Como entretanto percebi que se calhar não havia muito abertura para este manifesto, então resolvi por iniciativa própria por em marcha esta manifestação em prol da nossa cultura, da nossa tradição e das nossas touradas à corda.

“O ‘escudo da saúde’ só aparece quando se fala nas touradas”.

PE – Uma das razões da manifestação era reivindicar a autorização para realização de touradas à corda nas festas tradicionais da ilha que ainda não foram canceladas. Quais as razões que lhe levam a defender a realização de touradas à corda, neste tempo de pandemia, que por razões de saúde pública, é totalmente desaconselhado grandes aglomerados de pessoas?
JG — Ainda bem que coloca esta questão para que se perceba que nós não colocámos as touradas à frente da saúde pública e que não nos preocupamos com este bem maior que é sem margem para dúvida a saúde de todos nós. O problema é que o “escudo da saúde” só aparece quando se fala nas touradas, e é completamente esquecido no que aos bares diz respeito, nas zonas balneares, completamente atulhadas de gente e até – ao que parece — na realização do Sata Rally Açores, que tanto ou mais do que as touradas é um evento de massas. Assim, as nossas razões são as mesmas que assistem aos exemplos atrás referidos, porque não nos convence, como não convencerá ninguém, que só nas touradas é que aparecem infetados, e que nos bares, nas zonas balneares e nos rallys não há infetados.
JP — Mas no caso do Sata Rally Açores trata-se de um grande evento do desporto automóvel internacional com importantes repercussões no Turismo/Economia da ilha de S. Miguel…
JG — Também as touradas à corda são muito importantes para a economia da nossa ilha Terceira. Se o Sata Rally Açores contribui decisivamente para o PIB da ilha de São Miguel, igualmente as touradas à corda contribuem para o PIB da nossa ilha, e não pode haver interesses económicos mais importantes do que outros, sobretudo quando deles resulta o desenvolvimento das ilhas, sejam elas quais forem.
A realizar-se o Sata Rally Açores é claramente uma afronta aos terceirenses. Sei que provavelmente vão alegar, que os troços foram adaptados, que se realizará sem espetadores, ou com poucos espetadores, mas quem é que vai controlar isso? Na prática tudo isto são planos que ficarão no papel, pois na prática não são exequíveis. Basta recordar uma situação bem mais fácil de controlar como os casos positivos ativos na Região, e a quantidade deles que saíram dos Açores à revelia das autoridades de saúde.

“O número de participantes na manifestação leva-me a crer que para os terceirenses está tudo bem com as touradas à corda”.

PE – Depois da manifestação do passado sábado e num tempo em que cada vez são mais os movimentos anti taurinos, como vê o futuro da tourada à corda na ilha Terceira?
JG — Para falar a verdade, neste momento, o que menos me preocupa são os movimentos anti taurinos, pois sinto-me muito mais apreensivo com o comportamento dos próprios taurinos. Quando se diz que os anti taurinos não venham para cá porque não têm futuro, receio que seja a posição de alguns taurinos a lhes garantirem esse futuro, sem que eles mexam uma palha e nesse sentido vejo um pouco nublado o futuro da Tourada à Corda.
O número de participantes na manifestação leva-me a crer que para os terceirenses está tudo bem com as touradas à corda e que o povo da Terceira não precisa dos toiros para nada. Eu pessoalmente não retiro quaisquer dividendos das touradas, mas há muita gente que sim, e aí eu iludi-me e enganei-me. Parece que quem ganha dinheiro com as festas taurinas, afinal este dinheiro não lhes faz falta nenhuma, pois bem, a mim também não faz, porque o meu interesse nas touradas é simplesmente de aficionado. Receio que o comodismo de muitos taurinos se reflita no futuro da tourada à corda.

Fotos: © Rui Sousa | PE

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