O PASSADO MARCA O PRESENTE

Alexandra Manes

Amadou Diallo era um jovem guineense, que partiu rumo aos Estados unidos da América com a perspetiva de estudar e aprofundar os seus conhecimentos em informática.

Amadou Diallo tinha 23 anos quando, no dia 4 de fevereiro de 1999, morreu vítima de 41 (quarenta e um tiros), disparados por 4 polícias à paisana do departamento policial de Nova York, que se sentiram ameaçados pelo jovem, que se encontrava à entrada do seu apartamento, no Bronx.

Amadou Diallo estava desarmado.  Após várias manifestações e da alteração de local para o julgamento, os policias foram declarados inocentes.

Cheryl Araújo tinha 21 anos quando foi violada por 4 homens, em cima de uma mesa de bilhar, com os aplausos de outros dois homens, num café, em New Bedford, no ano de 1983.

Ao longo do processo de julgamento acabou por ser Cheryl a julgada. Toda  a sua vida foi escrutinada. “O que foi fazer ao café durante o período da noite?”; “Em algum momento poderá ter dado indicações de que queria sexo com os homens em questão?”; “Que trazia vestido?”… questões como essas foram colocadas pela defesa dos homens.

Dos 6 homens, 4 foram considerados culpados e os outros dois inocentes. Passados perto de 3 anos, Cheryl acabou morrendo vitima de um acidente de viação. Deixou 2 filhas órfãs. Os homens condenados foram libertados pouco tempo depois.

À altura, a comunidade luso descendente manifestou-se amplamente a favor dos homens que haviam violado a jovem.

Passados quase 30 anos sobre estes acontecimentos impõe-se uma reflexão: o que mudou?

George Floyd morreu recentemente após um ato de violência policial. As mulheres continuam a ver a sua vida escrutinada e todos os seus atos avaliados. As perguntas colocadas a Cheryl continuam a fazer parte do quotidiano do século XXI.

O racismo, a violência domestica, a violência policial, por vezes, exercida, não são coisas do passado. São temas que estão bem presentes nos dias de hoje. São estruturais, estão enraizados e são culturais, infelizmente. Estes temas estão presentes na nossa sociedade e têm de ser falados/debatidos para que se resolvam!

Dizer que por ter acontecido na América não é problema nosso, não é argumento, pois para o bem e para o mal, fazemos parte deste mundo.

Portanto, se querem que “All Live Matters” não se esqueçam de que o racismo mata; que a violência domestica mata; e que está nas mãos de todos e todas nós travarmos uma batalha contra isso.

Finalizando, lamento que muitas pessoas prefiram o conforto de não manifestarem a sua opinião e de não marcarem a sua posição perante estes atos. “Agradar a gregos e a troianos” é sinonimo de passividade e resulta sempre favoravelmente para o opressor.

Alexandra Manes
Coordenadora do BE/Terceira
Dirigente do BE/Açores

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