O PODER NÃO SE DÁ, CONQUISTA-SE

Rui Machado de Medeiros

Frequentemente encontramos comentários de cidadãos e políticos que defendem a ideia de que a autonomia foi uma conquista que resultou do direito que o Povo Açoriano tinha em poder ser condutor de alguns dos seus destinos. Esta visão ingénua da História, só é possível quando se pretende branquear um processo conferindo-lhe um carácter que ele não tem. Quem diz que assim foi está a pretender desfocar a realidade que envolveu a conquista da autonomia dos Açores, tentando fazer passar a ideia de que Lisboa foi virtuosa e generosa ao reconhecer que as aspirações dos açorianos eram legitimas.

Fazendo um breve estudo sobre as transferências de poder em todo o mundo, verificamos que estes processos são, na sua maioria, momentos de conflito e de tensão, onde a cedência de poder só acontece porque quem o detém já não tem mais condições para continuar a detê-lo.

No caso dos Açores não foi diferente, o poder foi arrancado a Lisboa e esta só cedeu porque a alternativa era a independência. Com o processo iniciado a seis de junho os açorianos introduziram uma dinâmica na vivência política que foi evoluindo, atingindo um patamar onde os compromissos estavam cada vez mais difíceis de se estabelecerem. Num mundo radicalizado, os independentistas dominavam os principais sectores da vida social, económica e política do arquipélago e perante esta evidência Lisboa não teve outra alternativa e estabeleceu diálogo com alguns sectores que aceitaram negociar de forma a ser adotada a solução autonómica. O controlo do arquipélago por parte dos independentista só foi possível porque, ao contrário do que muitos tentam insinuar, houve uma grande adesão por parte da classe média de então. Nas fileiras independentistas estavam, pequenos comerciantes, empregados de escritório, lavradores, agricultores, condutores, professores, estudantes, etc, etc, e como vivemos numa terra pequena é fácil identificar quem eram estes atores políticos desmistificando-se a ideia de que os independentistas eram os grandes proprietários. Se os independentistas fossem todos grandes proprietários, seria motivo para grande alegria, pois significaria que éramos uma região muito capitalizada com um ótimo nível de vida, o que infelizmente não corresponde à verdade. A maioria dos independentistas eram pessoas modestas que não se identificavam com a situação e consideravam que tinha chegado o momento de tomarmos as rédeas do nosso destino. Esta ideia não era nova e naquele contexto apresentava-se como uma solução. É de salientar que os independentistas tinham um considerável apoio dos mais jovens, o que conferia um dinamismo muito próprio ao processo.

Depois de avanços e recuos, traições e negociações e a divulgação da ideia de que a autonomia era um processo dinâmico e progressivo, muitos dos independentistas foram aderindo ao compromisso com Lisboa construindo-se a solução por todos conhecida.

A atual autonomia foi arrancada a Lisboa, da mesma forma que a primeira autonomia foi esmagada com tiros e mortos a 28 de fevereiro de 1933 por Lisboa, facto histórico que muitos escondem e como tal pouco conhecido.

Em síntese, pode considerar-se que o seis de junho foi a mãe e o pai da autonomia, e o seu parto foi tenso, porque, tal como já disse, o poder não se dá, conquista-se.

Rui Machado de Medeiros

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s