DAS RENDAS ÀS TENDAS

Uma tenda numa praça parece conseguir uma coisa que uma renda incomportável já não consegue: provocar uma reação imediata.

Discute-se se pode estar ali, quem a montou, a que horas deve sair. Há declarações, avisos e intervenções. Gostava que houvesse a mesma urgência perante quem passa semanas à procura de casa e percebe, anúncio após anúncio, que o seu salário não chega.

Talvez seja por isso que me custa ouvir chamar arruaceiros aos que protestam por habitação. Não conheço cada pessoa que ali está, nem preciso de concordar com todas as palavras de ordem. Mas reconheço o problema que os levou à rua. Basta olhar para as rendas e fazer contas a um salário para perceber que há razões de sobra para protestar.

A falta de casa entra em decisões muito íntimas. Há quem queira separar-se e não possa sair. Quem trabalhe longe dos filhos porque perto deles não consegue pagar uma renda. Quem continue em casa dos pais sem saber quando poderá começar a sua vida. São situações diferentes, unidas por uma dificuldade que vai consumindo os anos.

Quando estas pessoas ocupam uma praça, tornam visível uma aflição que costuma ficar fechada dentro de casa. E nós passamos a discutir o incómodo de as ter à vista.

Lembro-me das tendas dos professores, em 2023. Também houve pernoitas no espaço público e uma luta prolongada por direitos. Agora, perante os protestos pela habitação, quero perceber que circunstâncias justificam uma atuação diferente. Pode haver diferenças relevantes entre os casos. Então, que sejam explicadas. A frase “a lei é para cumprir” deixa essa pergunta por responder.

Havendo violência ou vandalismo, apurem-se responsabilidades. Mas chamar arruaceiro a quem ali está, só porque ali está, permite evitar uma conversa bastante mais difícil: como chegámos ao ponto de tantas pessoas sentirem que precisam de dormir numa praça para serem ouvidas?

Nas redes sociais, essa conversa encontra outro desvio conhecido. Fala-se de habitação e responde-se com imigração, comunistas e subsídios. Já me aconteceu. De repente, parece que a renda foi decidida pelo trabalhador estrangeiro que também procura um quarto onde caiba o seu ordenado.

O crescimento da população aumenta as necessidades de habitação, evidentemente. Mas transformar quem chega na explicação para tudo poupa demasiado trabalho a quem teve responsabilidades nas decisões do país.

O PS governou durante anos e deixou agravar o problema. O Governo de Luís Montenegro tem de responder pelo que faz agora. Não me interessa escolher qual deles merece mais desculpas. Interessa-me saber o que muda na vida de quem procura casa. Um apoio à compra pode ser útil, mas pouco diz a quem não consegue assumir um empréstimo e também não encontra uma renda que possa pagar.

É por essas pessoas que avalio as respostas políticas. Pela possibilidade de uma mulher sair de uma relação que terminou. De um jovem aceitar trabalho sem gastar quase tudo num quarto. De uma família renovar o contrato sem recear que lhe peçam um valor impossível.

Sei que as casas não se constroem de um dia para o outro. Também sei que quem espera continua a pagar, a adiar e a fazer contas. Essa espera merece mais atenção do que tem recebido.

As tendas podem sair da praça. No dia seguinte, as pessoas continuam a precisar de um lugar para viver.

Márcia Pimentel
Assistente Social