
O turismo dos Açores atravessa uma fase de ajustamento, mas os indicadores disponíveis não sustentam um cenário de crise generalizada, afirmou Berta Cabral, secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, na Horta, destacando o crescimento das receitas hoteleiras e a confiança dos investidores no setor.
A governante interveio no debate de urgência sobre as políticas públicas de incentivo ao turismo, reconhecendo os desafios decorrentes da instabilidade geopolítica internacional, do aumento dos custos das viagens e da maior prudência dos consumidores, a que se juntam os constrangimentos de uma região ultraperiférica e arquipelágica, dependente das acessibilidades aéreas.
“Vivemos um período exigente, mas não estamos perante um cenário de queda alarmante”, afirmou Berta Cabral, recordando que 2025 foi o melhor ano de sempre para o turismo dos Açores, com mais de 4,5 milhões de dormidas, 1,4 milhões de hóspedes e 206 milhões de euros de proveitos na hotelaria.
Segundo os dados apresentados pela secretária regional, em 2026 as receitas do setor continuam acima dos níveis registados no ano anterior, enquanto os indicadores de hóspedes e dormidas permanecem superiores aos de 2024. Entre abril e agosto deste ano, já após a saída da Ryanair da Região, os proveitos totais da hotelaria aumentaram 6,9% face ao período homólogo.
A confiança dos empresários e investidores é também evidenciada pelo volume de candidaturas ao programa CONSTRUIR 2030, que ultrapassa os 500 milhões de euros. Deste montante, 68% corresponde a investimentos em alojamento, animação turística, restauração e atividades associadas.
Berta Cabral reconheceu, contudo, que a diminuição da procura em alguns segmentos, sobretudo no mercado nacional, constitui um desafio para o setor. Defendeu, no entanto, que esta evolução deve ser analisada em conjunto com o crescimento significativo da oferta turística registado nos últimos anos.
Entre 2022 e agosto de 2026, o número de camas disponíveis nos Açores aumentou 32,7%, sobretudo devido à expansão do alojamento local. Só nesta tipologia foram criadas mais 9.600 camas em quatro anos e meio, um crescimento equivalente à capacidade de mais de 96 hotéis com 100 camas cada.
Na perspetiva da governante, o aumento da oferta tem impactos na competitividade e contribui para a dispersão da procura, exigindo uma análise que considere a evolução conjunta da capacidade de alojamento e da procura turística.
CONECTIVIDADE AÉREA E NOVAS ROTAS
Relativamente à saída da Ryanair, Berta Cabral reiterou que a decisão resultou de uma opção comercial da companhia aérea, semelhante a outras tomadas em diferentes mercados europeus. A secretária regional defendeu que a discussão sobre as acessibilidades aéreas dos Açores não deve ficar limitada a uma única transportadora.
A governante destacou o trabalho desenvolvido para diversificar a conectividade aérea da Região, que, no verão IATA de 2026, contou com 16 companhias aéreas e 30 rotas, incluindo novas operações da Air Canada, WestJet e Austrian Airlines.
O Governo Regional mantém contactos com entidades nacionais e internacionais ligadas ao setor da aviação e com várias companhias aéreas, com o objetivo de reforçar as ligações aéreas ao arquipélago.
Nesse âmbito, Berta Cabral revelou que já estão asseguradas novas ligações para 2027: a rota Bruxelas–Ponta Delgada, operada pela Transavia, e a ligação Newark–Terceira, assegurada pela United Airlines.
Quanto ao Fundo de Desenvolvimento de Rotas Aéreas dos Açores, aprovado pela Assembleia Legislativa, a responsável esclareceu que a regulamentação foi elaborada pelo Governo Regional e remetida à Comissão Europeia para apreciação, no âmbito das regras relativas aos auxílios de Estado. O processo encontra-se em curso, assegurou, garantindo o empenho do executivo na sua concretização, em conformidade com os requisitos legais e comunitários.
PROMOÇÃO TURÍSTICA E SUSTENTABILIDADE
A promoção turística constitui outra das áreas de intervenção destacadas pela secretária regional. Estão em curso ações destinadas a reforçar a procura durante o inverno IATA, envolvendo o Turismo de Portugal, a Visit Azores, operadores turísticos e companhias aéreas.
A estratégia inclui campanhas promocionais, viagens de imprensa (presstrips), viagens de familiarização para profissionais do setor (fam trips), formação de agentes de viagens, participação em feiras internacionais e ações de comercialização do destino.
O Governo Regional pretende também reforçar segmentos com potencial de crescimento fora da época alta, nomeadamente o turismo de natureza, os percursos pedestres, o cycling, a observação de aves (birdwatching), a cultura, a gastronomia e o bem-estar.
A proposta do Plano Anual Regional para 2027 contempla, segundo Berta Cabral, um investimento de 17,2 milhões de euros em promoção turística.
A governante reafirmou que o objetivo do executivo não passa por aumentar indiscriminadamente o número de visitantes, mas por promover um crescimento sustentável, assente na criação de valor, na qualificação da oferta e na distribuição dos benefícios económicos pelas nove ilhas.
Nesse sentido, destacou a estratégia definida no âmbito do PEMTA 2030, que tem contribuído para consolidar o reconhecimento internacional dos Açores como destino sustentável. Entre as distinções recentes, apontou a eleição da Região como “Melhor Destino Regional de Turismo de Aventura da Europa 2026”.
Perante os desafios que o setor enfrenta, Berta Cabral apelou à mobilização dos agentes turísticos, defendendo uma resposta baseada na confiança, na cooperação e numa visão estratégica de longo prazo.
“O turismo dos Açores foi construído com o trabalho de milhares de pessoas e continuará a crescer se soubermos responder aos desafios com exigência, inteligência e união. O Governo fará a sua parte, mas esta é uma missão coletiva”, concluiu.
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