Na Rua Serpa Pinto, na cidade da Praia da Vitória, o culto ao Divino Espírito Santo continua a ser muito mais do que uma manifestação religiosa. É memória viva, herança partilhada, mesa posta para todos e abraço comunitário que resiste ao tempo. Na passada quinta-feira, 21, o Praia Expresso testemunhou uma noite de fé, tradição e fraternidade, onde o Espírito Santo continua a morar nas pessoas, nos gestos simples e na devoção de uma comunidade de fé e partilha.
Há lugares onde o tempo parece caminhar mais devagar. Lugares onde as paredes guardam vozes antigas, onde os aromas da cozinha se confundem com as memórias da infância e onde a fé não se anuncia em grandes discursos, mas nos pequenos gestos repetidos geração após geração. O Império da Rua Serpa Pinto, na freguesia citadina de Santa Cruz, na Praia da Vitória, é um desses lugares.
Naquela que já se tornou uma tradição profundamente enraizada na vida daquele lugar, a semana que antecede o domingo de Pentecostes transforma aquela rua num espaço de encontro entre o sagrado e o humano. Durante estes dias, irmãos, mordomos, vizinhos, familiares e visitantes unem-se em torno do Divino Espírito Santo, numa celebração feita de oração, partilha, convívio e memória coletiva.
Nesta quinta-feira, 21 de maio, a convite da Comissão de Mordomos, o Praia Expresso testemunhou mais uma dessas noites onde a religiosidade popular se revela em toda a sua autenticidade. Sob a liderança de Norberto Gonçalves, a atual Comissão tem procurado preservar não apenas a dimensão espiritual da festa, mas também o vasto património cultural e afetivo que lhe está associado.
O atual império, de linhas contemporâneas e sóbria dignidade arquitetónica, foi inaugurado a 24 de maio de 2009. A construção representou um momento marcante para os devotos daquela rua, oferecendo finalmente um espaço fixo e digno para um culto que, durante décadas, viveu da itinerância e da generosidade das famílias.







Antes das atuais instalações, o altar do Divino Espírito Santo percorria as casas dos irmãos da antiga Rua do Rego — designação primitiva do império — sendo montado todos os anos em diferentes moradias. Mais tarde, durante largos anos, a devoção encontrou abrigo na casa do Sr. Auledo Gomes, figura recordada com respeito e gratidão por muitos dos presentes.
As instalações atuais refletem esse esforço de continuidade entre passado e presente. Para além do espaço litúrgico propriamente dito, existe um alpendre posterior, recentemente coberto pela atual Comissão de Mordomos, onde fotografias antigas eternizam os rostos daqueles que, ao longo das décadas, carregaram o peso e a honra de servir o Espírito Santo. Cada retrato parece guardar uma história de serviço silencioso, de fé discreta e de entrega comunitária.

Mais adiante, uma cozinha ampla, asseada e cuidadosamente equipada recorda que nesta ilha a espiritualidade raramente se separa da mesa. Porque o Espírito Santo celebra-se rezando, mas também repartindo. Partilhando o pão, o vinho, a carne e a presença.
No final das instalações, uma pequena despensa guarda ao longo do ano as insígnias, utensílios e pertenças do império. Objetos simples, talvez sem valor material aos olhos de quem vem de fora, mas carregados de significado para quem cresceu entre coroas, bandeiras e bodos.
Segundo uma homenagem prestada pela freguesia de Santa Cruz e assinado pelo então presidente Carlos Armando Costa, a 9 de junho de 2013, o Império da Rua Serpa Pinto terá sido fundado em 1935, quando ainda era conhecido como Império da Rua do Rego. Contudo, entre os habitantes persistem memórias e relatos familiares que apontam para origens ainda mais antigas, perdidas no tempo oral das gerações.

Mas pouco importa a exatidão da data quando se fala do Espírito Santo nos Açores. Porque o verdadeiro alicerce destas irmandades não está nos arquivos nem nos documentos oficiais. Está na permanência da partilha, da solidariedade e do sentido comunitário que resistem há séculos nestes nove pedaços de lava semeados no Atlântico.
E foi precisamente a partilha que marcou o início desta noite de quinta-feira.
Ainda antes do cair da noite, uma simples, mas generosa mesa acolhia os presentes com chicharros fritos, temperados com molho cru, acompanhados por pão de milho e vinho de cheiro vindo da ilha do Pico. Sabores simples, robustos e profundamente identitários, servidos sem distinções, como manda a tradição do Espírito Santo.

Ali não havia pressas. As conversas cruzavam-se entre gargalhadas discretas e recordações antigas. Uns ajudavam na cozinha, outros compunham as mesas, enquanto os mais vividos observavam tudo com a serenidade de quem sabe que estas festas são muito mais do que um ritual anual: são uma forma de viver em comunidade.
Pouco depois, já com a noite a envolver as ruas da cidade, ouviu-se ao longe o som ritmado dos tambores e passos dos escuteiros do Agrupamento n.º 23 do Corpo Nacional de Escutas da Praia da Vitória. Vindos do Largo da Batalha, marchavam em direção ao império, trazendo consigo a juventude, a disciplina e a continuidade de uma tradição que se recusa a desaparecer.
À chegada, os escuteiros deram início ao terço em honra do Divino Espírito Santo. Entre cânticos e orações, o pequeno império ganhou outra dimensão. As vozes erguiam-se num ambiente de recolhimento simples, sem ostentação, onde cada palavra parecia ecoar nas paredes e nos corações dos presentes.
Ali, entre velas acesas, coroas prateadas e bandeiras vermelhas, percebia-se que o culto ao Espírito Santo continua a ser uma das expressões mais profundas da identidade deste povo. Não apenas pela religião, mas pela ideia de igualdade, fraternidade e cuidado mútuo que lhe está subjacente.

Quando o terço terminou, a noite regressou naturalmente à mesa. Houve novo momento de convívio e partilha, com comida abundante, vinho servido generosamente e longas conversas entre os presentes.

Mas talvez o mais marcante daquela noite não estivesse na refeição, nem nas cerimónias, nem sequer na singela beleza arquitetónica do império. Estava no ambiente de genuína fraternidade que unia todos os presentes. Um raro sentimento de pertença coletiva, quase impossível de explicar plenamente a quem nunca viveu uma festa do Espírito Santo por estas bandas.
Na antiga Rua Serpa Pinto, hoje denominada Rua da Filarmónica União Praiense, naquela noite de quinta-feira, o Divino Espírito Santo não foi apenas celebrado. Foi vivido. Nos gestos, nos sabores, nas memórias e na proximidade entre as pessoas.

E enquanto houver uma mesa posta, uma coroa erguida e uma comunidade disposta a partilhar o pão e a fé, continuará vivo esse património invisível que faz dos Açores um lugar singular no mundo, que faz da segunda-feira seguinte ao domingo de Pentecostes o Dia da sua Autonomia Administrativa.
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