OS ÍNDIOS DA ESCOLA 37

A meio dos anos noventa, já lá vai mais de um quarto de século, enquanto editor da secção “Nacional” do Jornal de Notícias, secção que antecedeu a da “Sociedade”, era muitas vezes solicitado a ir falar de jornalismo a muitas escolas – do pré-primário ao universitário.

Esses meus testemunhos profissionais, iniciados em Coimbra, onde comecei a exercer a profissão de jornalista, e multiplicados no Grande Porto, foram sempre momentos a que dei grande importância, alguns dos quais momentos inesquecíveis pela comunicabilidade gerada.

Foram muitos testemunhos, em diversas escolas, de níveis de escolaridade diferente, testemunhos de que guardei excelentes memórias algumas das quais transformadas em crónicas de jornal, como uma a que dei o título de “Os Índios da Escola 37” cujo recorte esteve muito tempo afixado no placar da própria escola.

Numa dessas visitas à portuense Escola 37, assumido como jornalista quase pobre do grupo dos pequenos e médios jornalistas e ignorado fundador do Grupo Recreativo Amigos do Ozono (GRAO), fui falar com os alunos de uma turma do segundo ou terceiro ano de escolaridade, meninas e meninos que já sabiam escrever.

Dias depois de ter ido falar sobre jornalismo à escola 37, recebi uma prenda muito especial que ainda guardo – o registo, por palavras e por desenhos, em folhas de papel A4 individualizadas, do que as meninas e os meninos retiveram da minha passagem pela sala deles.

Nesse registo, eu, o meu bigode e os meus suspensórios (que então usava quase como imagem de marca) fomos bem retratados naquelas preciosas folhas de papel A4 onde também ficou claro, como ideia retida pelas meninas e pelos meninos, que os jornalistas devem dizer sempre a verdade.

Sem o saber e sem a urgência dos dias de hoje, estava já a combater o fenómeno da desinformação e a fazê-lo no espaço e no tempo em que esse combate é mais eficaz – a escola, preferencialmente nos primeiros anos de escolaridade.

Anos mais tarde, cruzei-me com um desses meninos da Escola 37, então já feito jovem adulto, sem, no entanto, o reconhecer. Ele, pelo contrário, lembrava-se de mim e lembrava-se de eu ter ido à escola dele falar sobre jornalismo. É mesmo na escola que o urgente combate à desinformação deve iniciar-se.

Júlio Roldão
Jornalista desde 1977, nasceu no Porto em 1953, estudou em Coimbra, onde passou, nos anos 70, pelo Teatro dos Estudantes e pelo Círculo de Artes Plásticas, tendo, em 1984, regressado ao Porto, onde vive.


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