INCERTEZAS INSTALADAS

Michele Serra, escritor e jornalista que mantém, há anos, no jornal italiano la Repubblica, um espaço de crónica com um público fiel, dedicou uma das crónicas mais recentes ao cancelamento da apresentação, na italiana cidade de Lonigo, do bailado “Lago dos Cisnes”, pelo Corpo Nacional de Baile da Ucrânia, à última da hora instigado pela Ópera Nacional da Ucrânia e pelo Ministério da Cultura de Kiev, a retirar aquele bailado do reportório considerando que o “Lago dos Cisnes” é um bailado da autoria do compositor russo Tchaikovsky.

Serra defendeu, nessa crónica, que impedir os bailarinos ucranianos de dançar o “Lago dos Cisnes” pelo facto deste bailado, escrito há um século e meio, ser de um compositor russo, será sinal de que Putin está a vencer a guerra desencadeada na Ucrânia. Mesmo considerando a justificação oficial de tal censura numa reacção aos recentes e graves factos ocorridos em Bucha, em Hostomel e em Mariupol, três das cidades ucranianas cujas populações civis estão entre aquelas que já foram vítimas de gravíssimas atrocidades militares.

Independentemente destas leituras, o que quero relevar hoje, aqui e agora, foi a dúvida que se instalou entre leitores mais atentos com a suspeita de que Michele Serra pudesse estar a veicular uma informação falsa ao dar como garantido que a Ópera Nacional da Ucrânia e o Ministério da Cultura de Kiev tivessem “ordenado” que o Corpo Nacional de Baile da Ucrânia deixasse de dançar o russo Tchaikovsky.

As buscas para confirmar, noutras fontes, tal proibição, revelaram-se, numa primeira fase, infrutíferas – a notícia não aparecia em lado algum, o que favorecia a ideia de estarmos a ser vítimas de desinformação, consciente ou inconscientemente provocada por um escritor e jornalista conceituado como é Michele Serra, intelectual para quem “a memória é como o colesterol”, ou seja, há uma memória boa e uma memória má.

Na verdade, tal caso ocorreu como Serra o descreveu e foi tornado público por uma nota do Teatro Comunal de Lonigo, nota cuja divulgação foi escassa e quase só restringida à imprensa da província de Vicenza (região do Vêneto) a que pertence a comuna (concelho) de Lonigo. Foi o que bastou para instalar incertezas, apesar do prestígio do jornal e do jornalista que garantiam aquela informação.

Júlio Roldão (*)
(*) Júlio Roldão, jornalista desde 1977, nasceu no Porto em 1953, estudou em Coimbra, onde passou, nos anos 70, pelo Teatro dos Estudantes e pelo Círculo de Artes Plásticas, tendo, em 1984, regressado ao Porto, onde vive.


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