EVANDRO MENESES: CONVITE PARA REGER A FUP É “UM DOS PONTOS ALTOS DA MINHA CARREIRA”

No passado dia 20 de março de 2021, um sábado, a Filarmónica União Praiense (FUP) festejou o seu 117.º aniversário. Entre outras iniciativas, a efeméride foi assinalada com um concerto no Auditório do Ramo Grande, o qual ficou marcado pela passagem de testemunho de maestros. A Antero Ávila que orientou a FUP nos últimos 16 anos, sucede o jovem Evandro Meneses, que aos 24 anos abraça a responsabilidade de dirigir a mais antiga instituição cultural da Praia da Vitória.

Evandro Meneses nasceu a 13 de junho de 1996 na vila das Lajes, no seio de uma família de músicos (pai e irmãos). Ainda em muita tenra idade — 2 anos — ingressa num grupo folclórico, desenvolvendo assim o seu gosto pela música e iniciando um percurso de aprendizagem musical que nunca mais largou e que lhe permitiu, em 2018, completar a licenciatura em Composição e Guitarra Clássica, pela Escola Superior de Música de Lisboa.

Ainda nesse ano, com apenas 22 anos, foi maestro convidado da Orquestra Sinfónica do Folk Azores (COFIT), dirigindo músicos de vários países, e é admitido para realização de Mestrado em Guitarra Clássica no Instituto Piaget, em Almada.

Nesta entrevista, o jovem compositor lajense fala-nos um pouco do seu percurso, da emoção e responsabilidade de suceder Antero Ávila na regência da FUP, da banda que agora dirige e do seu papel no panorama cultural local e regional, e ainda dos seus projetos para o futuro, quer ao nível da banda como pessoais.

“É uma alegria enorme para mim entender a confiança que em mim depositam para este novo desafio”.

Praia Expresso (PE) — Recebeu no passado dia 20 de março, das mãos do professor, compositor e maestro Antero Ávila a batuta de regente da FUP. Que significado tem para si, aos 24 anos, assumir uma banda filarmónica com 117 anos de história sucedendo na regência um dos seus muitos professores?
Evandro Meneses (EM) — Tenho confessado várias vezes que, mal finalizei as minhas licenciaturas em Guitarra Clássica e Composição, era um sonho dirigir uma banda filarmónica. Logo, estava mais que pronto para aceitar o primeiro convite que tivesse. Nunca pensei que esse mesmo convite viesse por parte da Filarmónica União Praiense, não por razões ligadas à FUP, mas pela simples razão de entender e reconhecer a responsabilidade e respeito que teria por ser o sucessor do Antero Ávila.
O Antero foi meu professor de composição, mais propriamente de Análise e Técnicas de Composição, de História da Música, de Acústica, entre outras. Foi, desde o início, um pedagogo que na qual admirava bastante pelo seu saber e pela sua maneira de ser. Foi a razão principal de ter realizado uma licenciatura em composição e é, sem dúvida, um exemplo a seguir que na qual tenho imenso respeito. Sabendo eu das suas capacidades e conhecimentos, o meu nervosismo foi imediato quando soube que eu tinha sido a pessoa escolhida para continuar o trabalho que o Antero desenvolveu por 16 anos nesta banda.
Por isso, esta passagem de testemunho foi, realmente, um dos pontos altos da minha carreira profissional e até pessoal e emocional. É uma alegria enorme para mim entender a confiança que em mim depositam para este novo desafio.

“A FUP é uma banda em desenvolvimento que tem dado cartas durante a sua evolução”.

PE — Em traços gerais, como classifica a banda e quais os seus planos/projetos para a mesma?
EM — Como todos nós bem sabemos, a FUP tem uma percentagem muito alta de músicos adolescentes (grande parte deles menores de idade). Todos eles estudam música através da própria escola criada pela filarmónica ou no conservatório, por isso, se fosse para qualificar a banda e se tivesse de escolher um termo fixo, diria que se trata de uma ‘banda académica’. No entanto, e é aí que nos devemos orgulhar, é uma banda que foi acostumada ao profissionalismo (o profissionalismo nem sempre tem a ver com cursos, formações ou ‘canudos’).
A FUP é uma banda em desenvolvimento que tem dado cartas durante a sua evolução. Acostumou-nos a ouvi-la em Abril, ou em tons de Beatles. Podíamos muito bem ouvi-la numa banda sonora de um filme ou num concerto nobre e solene. A minha função neste momento é continuar essa evolução, é tentar elevar a fasquia e o nível de dificuldade, é incentivar a fazerem mais e melhor, é continuar a fazer o que faziam e a fazer o que nunca fizeram, mas acima de tudo, os meus planos são de dinamizar a FUP e de mostrar a todos os Praienses o quanto ela está viva e de boa saúde, com a leal esperança que a Praia nunca se esqueça da importância que esta instituição tem para a própria dinamização da cidade e da Cultura Terceirense em geral.

“O público poderá dizer que existem filarmónicas melhores que outras, eu diria que existem filarmónicas que trabalham mais que outras.”

PE — Está satisfeito com o papel que as filarmónicas desempenham no panorama cultural açoriano ou, pelo contrário, entende que as bandas deveriam ter maior relevância/destaque?
EM — Existem muitos fatores que podem ser cruciais para que uma filarmónica específica não seja destacada no panorama geral nos Açores. O público poderá dizer que existem filarmónicas melhores que outras, eu diria que existem filarmónicas que trabalham mais que outras. Não consinto, nem acho que seja saudável dizer-se que certa e determinada filarmónica é má.
Dou-me por satisfeito pelo facto de cada vez mais sermos surpreendidos com filarmónicas a realizarem concertos fora das marchas de São João, das procissões, dos bodos, dos dias de festa. Por vezes vemos uma banda que se junta a um coro, ou a uma orquestra de cordas, ou a cantores solistas para realizarem algum projeto num espaço/palco mais íntimo. Ou ainda na aposta de intercâmbios e formações pontuais para os músicos.
As próprias bandas nunca devem duvidar das suas capacidades pois cada uma delas, com as suas características próprias, conseguem fazer algo de novo e ao seu alcance. Posteriormente, parte das entidades governamentais, e também do próprio público, apoiar essas ideias e incentivar a criarem mais.

“No geral, o importante [para se ser bom músico] é a humildade, a concentração e, especialmente, a dedicação que é dada no nosso trabalho. Esses três fatores farão de um músico um excelente executante.”

PE — Quais as qualidades necessárias para se ser um bom músico de uma banda filarmónica?
EM — A resposta a essa pergunta poderá parecer clichê ou óbvia, mas é a verdade. Não é no talento nem no dom para a música, nem na facilidade em ler partituras, nem no melhor som que sai do instrumento que nos faz melhores músicos. Para responder a esta pergunta nada melhor do que exemplificar através da FUP.
Nos poucos meses que ensaiei a FUP para o último concerto a 20 de Março, vi imensas coisas que provieram de bons músicos:
Vi músicos que apesar de alguma persistência por parte do maestro nunca desistiram nem contestaram a sua exaltação, entendendo que se o maestro os retorquiu e insistiu foi por saber que estavam dispostos a melhorar, e se estão dispostos a melhorar tornam-se bons músicos.
Vi músicos que disponibilizaram o seu lugar para que outros executassem o seu papel/instrumento de forma mais acertada e correta. Tornam-se bons músicos por conseguirem entender que a importância está no trabalho e no resultado que é feito em grupo, e não individualmente. O público não ouve a banda um a um, mas sim em grupo.
Vi músicos que se preocupam com o colega do lado, chamando-o à atenção de quando entrar e de o ir ajudando em algumas dificuldades. Tornam-se bons músicos pelo espírito de entre ajuda e humildade que têm para com os outros.
Vi músicos que desde a primeira indicação do maestro que anotem afincadamente na partitura cada pormenor dito pelo mesmo. Tornam-se bons músicos pela concentração e atitude exemplar concedida à música e à banda.
Tantos outros exemplos de qualidades necessárias para se ser um bom músico que poderia dar. No geral, o importante é a humildade, a concentração e, especialmente, a dedicação que é dada no nosso trabalho. Esses três fatores farão de um músico um excelente executante.

“Hoje em dia o meu percurso profissional está a começar a fixar-se em várias atividades todas elas ligadas à música, todas elas pensadas e trabalhadas para que um dia se realizassem”.

PE — Tanto quanto julgo saber todo o seu percurso académico e profissional tem estado relacionado com a música. Só se vê a trabalhar nesta área? Quais são os seus grandes objetivos?
EM — Todo o meu percurso académico e profissional foi relacionado com a música pois foi um percurso que foi se desenvolvendo na maior das normalidades, sabendo que o que viria a seguir era uma consequência de algo passado. Por outro lado, também não me via a fazer outra coisa. Tenho outras paixões que na verdade podem estar ligadas à música, nomeadamente o cinema, o teatro, a escrita, a fotografia, entre outros, seja na parte de quem vê, seja na parte de quem realiza.
Hoje em dia o meu percurso profissional está a começar a fixar-se em várias atividades todas elas ligadas à música, todas elas pensadas e trabalhadas para que um dia se realizassem. Para além de dirigir uma banda, sou músico que faz concertos com projetos meus ou através de outros artistas, sou professor de música e de vários instrumentos de corda, sou compositor, e, ultimamente, tenho vindo a trabalhar num homestudio (EM Estúdio Musical), um estúdio de gravação, que tem como objetivo gravar os vários artistas/músicos que quiserem cá vir editar os seus trabalhos/projetos. Apesar destas atividades fixas, nunca deixo de praticar algumas das artes mencionadas em cima. Acredito que cada arte completa a outra e que, conhecendo um pouco de todas, nos completamos a nós próprios.

MAIS SOBRE EVANDRO MENESES
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© PE | Fotos: Evandro Meneses

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