VICE-PRESIDENTE DO CHEGA AÇORES DEMITE-SE DA DIREÇÃO REGIONAL E ABANDONA MILITÂNCIA

O vice-presidente do Chega Açores, Orlando Lima, cabeça de lista do partido pela ilha Terceira, nas eleições legislativas regionais do passado domingo, 25 de outubro, enviou a 28 de outubro, quarta-feira, uma carta de demissão ao presidente do partido nos Açores, Carlos Furtado, segundo publicação do próprio, esta segunda-feira, no seu perfil pessoal da rede social facebook®.

Na missiva, Orlando Lima não só demite-se do cargo de vice-presidente como abandona a militância do partido, invocando razões de consciência “inultrapassáveis” face à postura adotada quer pela liderança regional como nacional, num “centralismo” que não se revê.

CARTA ENVIADA

“Carta de demissão                                           28 de Outubro 20

Caro Presidente do CHEGA Açores, Carlos Augusto Furtado, meu Amigo.

É com enorme pesar que me afasto do CHEGA, a quem entreguei a minha dedicação incondicional e a minha esperança na transformação da sociedade açoriana que tanto necessita de uma voz reformista, na luta pela justiça social, pela democracia que cá não existe.

Desejo-te as maiores felicidades, sabendo que sei, pela integralidade e responsabilidade que te caracterizam, que este momento não estará sendo fácil para ti.

Lamentavelmente, esta comunicação será também um pedido de desculpa dirigido a todos os amigos, pessoas de boa-fé, militantes e simpatizantes do CHEGA, que na ilha Terceira, ou em qualquer outro ponto da Região, acreditaram neste projeto que eu também protagonizei, e que pela minha intervenção se sentiram no dever de nesta eleição de 25 de Outubro, votar CHEGA, e que hoje porventura se sintam desiludidos ou defraudados com a nossa postura. É com a mesma cara com que lhes pedi o voto que os olho a pedir desculpa.

Por considerar importante, e sendo a última vez que me dirijo ao partido, vou, antes de elencar as razões desta demissão fazer a crítica que em tempo informei, iria materializar depois deste ato eleitoral:

– Os critérios de seleção dos elementos constantes da lista de compensação foram, apesar da minha contestação interna, (note-se que ao fazê-lo, e por ser parte interessada, informei da minha indisponibilidade para o cargo), o de um clube de amigos, não de um partido político, com responsabilidade de correção e equidade perante o seu eleitorado. O critério que recomendei foi o de, o cabeça de lista de São Miguel ser o primeiro da compensação, o cabeça de lista da Terceira ser segundo da compensação e sucessivamente, tendo por base a representatividade eleitoral de cada uma das ilhas. Aí, ao contrário do que aconteceu, os nossos candidatos por esse ciclo teriam a legitimidade eleitoral que hoje não têm. O deputado eleito, José Pacheco não foi votado nem eleito por ninguém, a não ser pela direção regional do partido que anuiu a seu favor. A sua legitimidade eleitoral é zero. Acabamos com uma representatividade assimétrica da Região em que São Miguel elege dois deputados e a Terceira, coisa nenhuma, apesar da sua expressão de eleitoral. O resultado eleitoral refletiu exatamente a minha previsão, só não alcançando como previra o segundo deputado da compensação por uns míseros 15 votos. Sei também que da parte do deputado Carlos Augusto, tudo fará, porque os seus princípios e verticalidade a tal o obrigam, para assegurar a defesa das causas que em consciência considerar serem as mais importantes para o todo Regional, independentemente da sua localização geográfica.

As causas para a minha demissão, que não é só da Direção Regional, mas também da militância do partido CHEGA, são as seguintes, que em consciência considero inultrapassáveis face à postura adotada pela liderança Regional:

– Recomendei na noite de 25 de Outubro que André Ventura fosse afastado da comunicação social, devendo o Presidente Regional Carlos Augusto Furtado assumir a comunicação à imprensa, por ser esta a sua e nossa vitória e por ser seu dever e responsabilidade conduzir o CHEGA Regional pelo difícil mas desafiante caminho de assegurar, mediante cuidada negociação com os parceiros políticos à direita, uma alternativa de governação. Este era um senário político previsto, sobre o qual o Presidente Regional Carlos Augusto já se havia manifestado ao eleitorado, que já tinha sido discutido pela sua direção, para o qual eu havia defendido a não participação em soluções governativas como por ele inicialmente apontado, mas sim de incidência parlamentar. Esta foi uma promessa eleitoral e uma solicitação diária do nosso eleitorado. O Partido Socialista na governação com os 300 Milhões da Europa, faz uma festa, deixa-nos a todos na miséria, mas compra votos para mais oito anos. Negar uma alternativa de direita na governação Regional será traição. Este seria o papel de outro, nunca do CHEGA;

– O pressuposto anterior não aconteceu. Assisti a André Ventura que, fazendo um eloquente discurso de vitória, assumiu uma lamentável postura centralista e, descurando os interesses dos açorianos, extrapolou as decisões que deveriam ser locais, para a defesa infantil de interesses dos “cheganos” nacionais, que por muito legítimos e necessários que o são, o povo açoriano não tem para com eles a mais pequena identificação. Os nossos problemas de corrupção são reais e locais, a nossas reivindicações e necessidades passam por problemas locais, mais imediatos do que a redução de 50% do RSI, por muito importante que o é. Reitero que na Terceira temos a contaminação e os graves problemas de saúde que daí advêm, a radioterapia, as malfadadas obras o Porto Pipas, problemas de transportes marítimos e aéreos, etc. A governação Açoriana faz-se para a defesa do povo açoriano, não para resolver as questiúnculas dos senhores de Lisboa nem para ganhar uns pontos junto do eleitorado continental. Tal significa para mim uma atitude no mínimo centralista que em nada dignifica o imperioso respeito pelo Povo Açoriano e pela autonomia da Região Autónoma dos Açores. É uma atitude da qual me envergonho e peço desculpa a meu eleitorado e ao Povo Açoriano, esperando que os deputados que ajudei a eleger, encontrem o seu espaço de independência, necessário à imediata correção destas assimetrias;

– Internamente também não me revejo na atuação dos meus dirigentes. Ocupo, até à receção desta carta o lugar de Vice-presidente do CHEGA Açores. Desde a noite eleitoral que solicito e reclamo por uma reunião da direção a fim de ver discutidos estes assuntos que considero fraturantes e da maior urgência. Tinha o fim de atempadamente poder mitigar os riscos e problemas existentes, criando uma estratégia Regional legitima e capaz de lidar com os desafios atuais bem como corrigir as incongruências do discurso do nosso líder Nacional. Encontro opacidade e silêncios. Cheguei a perguntar, se estamos dormindo, se estamos conformados e submissos, ou se meramente deslumbrados? Ou somos um partido democrático que dialoga e escuta os seus dirigentes, ou somos uma estrutura centralista na qual não me revejo. Como não sou gaja de ninguém, não dou para este carnaval;

– Houve-se por aí que o José Pacheco considera ter havido um mau resultado na Terceira, e que tal justifica uma alteração na liderança. Em nada dificultarei os seus intentos. Tivemos um resultado de 5,37% contra 5,55% em São Miguel. Parabéns! Com duas semanas de campanha e grande falta de recursos. Sabendo que sabíamos, estar trabalhando para o eleger a ele, nada nos demoveu. Trabalhamos por causas, não por coisas. Mas esta é uma postura que não estranho vindo de alguém que entrou no CHEGA com o estatuto de desempregado político e se blindou para assegurar a sua eleição. Foi quem em tempos próximos manipulou uma tentativa de afastamento do Carlos Augusto da Presidência Regional, cargo que temporariamente substituiu. Fê-lo da mesma forma. Andou durante uma semana semeando venenos que por azar não surtiram efeito. É a mesma pessoa que afasta dos órgãos decisórios aqueles que apresentam verticalidade e voz própria, que exclui das redes sociais militantes e simpatizantes que se lhe opõem. É o personagem que na presença dos seus líderes, tem a desfaçatez de dizer que vai tomar as rédeas do partido. VERGONHA! Fiz esforço de não me incompatibilizar até ao momento, filo pelos Açores, filo pelo CHEGA. Todo o peru tem o seu dia.

Desejo a todos os militantes a maior fortuna na transformação deste partido naquilo que realmente esperam dele, e embora sabendo que as coisas se transformam de dentro para fora, para mim CHEGA!

A todos os militantes que dedicadamente incluíram listas, e/ou trabalharam afincadamente nesta eleição, de modo absolutamente desinteressado e por uma causa maior, o meu muito OBRIGADO!

Para ti Carlos Augusto, pessoa que aprendi a respeitar e considerar, sei que encontrarás dentro de ti o melhor caminho para a tarefa gigantesca que tens em mãos, fazendo sempre melhor por este povo que somos todos nós. Aquele Abraço e muito obrigado pela tua amizade!

Sem outro assunto

Orlando Lima”

© PE

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