CORISCAS GAIVOTAS! OU TALVEZ NÃO…

António Lima

A propósito de notícias sobre poluição marinha nas zonas costeiras neste verão e da atribuição às gaivotas da responsabilidade pela poluição por coliformes fecais das águas do ilhéu de Vila Franca do Campo, em São Miguel alguém comentava, de forma irónica, “coriscas gaivotas”. Serão mesmo as “coriscas gaivotas” as culpadas por tão intensa e persistente poluição?

Este não é apenas mais um caso de uma zona balnear que teve um dia mau. Segundo a associação ambientalista Zero, esta é a “pior situação de contaminação entre as zonas balneares em funcionamento” em Portugal. Por aqui se vê a gravidade do caso.

Perante um episódio de recorrente poluição que obrigou a encerrar por diversas vezes a zona balnear da lagoa que se situa no interior do ilhéu, inacreditavelmente o principal suspeito para o município são as gaivotas e, presumivelmente, as outras aves marinhas que lá vivem ou nidificam como os garajaus ou os cagarros. Até já queriam desatar aos tiros às pobres aves, esquecendo-se que o ilhéu de Vila Franca é uma reserva natural, que nela nidificam espécies protegidas e que o controlo de densidade populacional de alguma espécie, se necessário, não se faz aos tiros. E ao contrário do que diz o Presidente da Câmara, a Reserva Natural é para os animais e não para as pessoas, por isso é que é uma Reserva Natural.

Mas este método cowboy não seria inédito, porque “correções” populacionais aos tiros já se fizeram antes nos Açores, com a chancela do Governo Regional dos Açores. Sobre esta tirada do Presidente da Câmara as autoridades competentes nada disseram.

Após uma investigação vem agora a Direção Regional dos Assuntos do Mar (DRAM) dizer que a contaminação tem origem animal e… humana. Se a origem animal da poluição está mais do que identificada – as colónias de aves existentes na reserva natural – o mesmo não se pode dizer da origem humana. Nenhuma possibilidade é avançada. Para além disso é a própria DRAM que assume que a poluição de origem animal, no dia da amostragem, não colocaria em causa a saúde de quem naquela água nadasse.

Então qual é a fonte da contaminação causada pela atividade humana? O emissário submarino que tantas vezes é apontado pela população como causa possível? Esgotos não tratados? Ficamos assim, não há causas nem responsáveis. A situação continuará a ser monitorizada, diz a DRAM. Mas monitorizar não é resolver e o que que se exigem são soluções.

É esta inércia que explica também que na costa oposta da ilha de São Miguel desde, pelo menos, de 2016 dure e perdure a vergonhosa poluição do ar e sobretudo do mar causada pela fábrica da Cofaco em Rabo de Peixe. As imagens do mar amarelo que se estende por centenas de metros mar a fora e que já encheram o areal da praia de Santa Bárbara, a 2 km de distância, de resíduos industriais não tratados são mais do que conhecidas da população daquela vila e já tiveram honras de telejornal. Não há desculpas!

O Bloco já denunciou por diversas vezes a situação, no parlamento e no local. Já realizamos audições ao governo acerca deste assunto. E o que aconteceu? Está tudo na mesma e os mais de 800 mil euros de dinheiro público para a ETAR da unidade industrial serviram para tudo menos para tratar as águas residuais.

Parece que também este assunto não é para resolver é para monitorizar.

Existe uma enorme dissonância entre o discurso e marketing da região enquanto natureza intacta e a realidade ambiental pura e dura. Mas pior do que tentar enganar turistas é enganar os açorianos e açorianas, ora ignorando os problemas que se arrastam há anos, como na Cofaco, ora arranjando bodes expiatórios – ou na versão açoriana gaivotas expiatórias – para a poluição do nosso mar.

António Lima
Coordenador e deputado regional do BE/Açores

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