DO MATO PARA O ADRO: O PRINCÍPIO DA TOURADA À CORDA NA ILHA DE JESUS CRISTO

Segundo o historiador Francisco Miguel Nogueira, o primeiro registo de tourada à corda na ilha Terceira remonta a agosto de 1622, “quando a Câmara de Angra preparou uma celebração em nome de São Francisco Xavier e de Santo Inácio de Loyola, festejando a canonização de ambos de 12 de março de 1622 pelo Papa Gregório XV”.

Em crónica de efeméride publicada no quinzenário praiense “Jornal da Praia”, a 06 de abril de 2018, edição n.º 518, o historiador sustenta que a origem do gado bravo no interior da ilha confunde-se com o próprio povoamento, primeiro ilha de “Jesus Cristo”, depois “Jesus Cristo da Terceira” e hoje simplesmente “Terceira”.

Segundo escreve, aquando do povoamento foi trazido para a ilha gado “vacum” – gado bovino e búfalos — sobretudo pelos povoadores de origem algarvia e nortenha, juntamento com outro gado doméstico. Com o povoamento centralizado no litoral, numa ilha virgem, coberta de vegetação e sem acessibilidades, muito deste gado fugiu para o interior perdendo os humanos o seu rasto. Aí de forma natural e espontânea este gado foi-se cruzando, pastando livremente nos verdes húmidos do anterior da ilha.

Com a evolução do povoamento, aos poucos, os povoadores foram galgando novas terras mais para o interior, tendo encontrado gado selvagem e muito bravo. Esse gado era capturado e morto, servindo de alimento. A experiência comum verificou, que quanto mais árdua e longa era a captura, mais a carne do animal se revelava tenra, suculenta e saborosa.

Animal cansado é mais saboroso. Então, depois de capturado o animal era deixado a correr, amarrado com uma corda ao pescoço nos atros das igrejas ou em outros espaços mais amplos do povoado, até ficar exausto, e só depois disso era morto e a sua carne cozinhada.

Nesse ritual de cansar o animal e verificando a sua bravura investida à figura do homem terá nascido o ato de capear, na ânsia de o cansar mais depressa e, assim, mais rapidamente o abater, cozinhar e saciar-se da sua suculenta carne.

O espírito aventureiro e desafiador do homem aliado à adrenalina do perigo iminente, terá sido o mote para que na Terceira, a secular tradição de cansar toiros, perdure nos dias de hoje, sob a forma de touradas à corda, transformando-se num evento social de multidões e, contribuindo, segundo contas do economista Tomaz Dentinho, 0,6% para o rendimento anual, sendo que cada tourada acrescenta cerca de 15.000 euros ao Produto Interno Bruto (PIB) da ilha.

NE: Texto inspirado na crónica do historiador Francisco Miguel Nogueira, em epígrafe referenciada, sendo uma redação livre do Praia Expresso, na nossa linguagem: do povo para o povo.

Foto: © Marco Charamba | PE

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s