RECEIA ARCTTC: COVID-19 “PODERÁ COLOCAR EM CAUSA A VIABILIDADE DE CONTINUAÇÃO DE ALGUMAS GANADARIAS”

Direção da ARCTTC: Sónia Ferreria (presidente); Mariana Rego Botelho (secretária); Emiliana Gaspar (tesoureira)

A presidente da Associação Regional dos Criadores de Toiros das Touradas à Corda, Sónia Ferreira, em entrevista ao PE, perspetiva “um ano dramático” para uma atividade que gera “cerca de 10% do Produto Interno Bruto da ilha Terceira”. Sónia Ferreira diz que muitas touradas das festas de verão “que estavam agendadas e contratadas, foram já canceladas junto dos ganaderos”, garantindo que a Associação está a trabalhar no sentido de sensibilizar os poderes públicos para as dificuldades que as ganadarias estão a atravessar. Apesar, deste tempo de extraordinária adversidade, a representante dos ganaderos, revela-se otimista e deixa uma mensagem de esperança para todos, agradecendo de forma especial aos profissionais na linha da frente, que “mostram a força e a garra do povo da terra dos bravos”.


Em tempo normal, arrancaria na próxima sexta-feira, 01 de maio, a época de touradas à corda na ilha Terceira, que se prolongaria até ao dia 15 de outubro.

Tal como muitas outras atividades e tradições, neste tempo de pandemia e de estado de emergência, as touradas à corda estão suspensas, não se sabendo quando será levantada pelas entidades competentes esta suspensão.

Entretanto, longe dos arraiais e dos olhos do grande público, no mato, os criadores continuam a alimentar diariamente os seus animais e a prestarem os cuidados veterinários de que os toiros necessitam, agora, sem as receitas das touradas à corda para fazer face aos encargos de todos os dias.

Criada há cerca de 20 anos, a Associação Regional de Criadores de Toiros da Tourada à Corda (ARCTTC) conta atualmente com 15 ganadarias associadas oriundas de três ilhas do grupo Central, representando os interesses e preocupações deste sector de atividade. A atual direção, que tomou posse para um segundo mandato de 2 anos, no mês anterior, é presidida por Sónia Ferreira, da ganadaria Casa Agrícola José Albino Fernandes, sendo a secretária da direção, Mariana Rego Botelho, da ganadaria Rego Botelho, e tesoureira, Emiliana Gaspar, da ganadaria João Gaspar.

Neste momento de especial dificuldade e de muitas incertezas, Praia Expresso esteve à conversa com Sónia Ferreira, no sentido auscultar as principais preocupações e receios dos criadores de toiros, as estratégias delineadas para mitigar os impactos da presente situação, assim como conhecer melhor a ARCTTC e o trabalho por ela desenvolvido em prol desta secular tradição.

Praia Expresso (PE) — Como têm reagido os criadores de toiros à eventualidade de este ano não se realizarem touradas à corda?
Sónia Ferreira (SF) — Com muita apreensão, pois adivinha-se, no seguimento da pandemia causada pelo novo coronavírus, COVID-19, um ano dramático em termos de realização de eventos e, por consequência, de receitas que permitam fazer face a todos os custos com a criação destes animais.

PE — Neste sentido, quais as certezas que neste momento a Associação tem relativamente a esta eventualidade?
SF — Sendo esta uma situação nunca antes vivenciada, existem, neste momento, muitas incertezas. A possibilidade ou não de realização de touradas à corda nesta época dependerá, naturalmente, do evoluir da situação e das respetivas medidas de segurança que forem sendo implementadas ou, por contrário, levantadas pela Autoridade Regional de Saúde.
Neste momento, não há qualquer previsão sobre quando poderão ter lugar eventos com um número significativo de pessoas, estando, no entanto, já comprometidos todos os espetáculos taurinos referentes aos bodos e Sanjoaninas, onde se incluem todas as corridas de toiros: à corda e de praça.
Ainda que a situação conheça alguma normalidade nos próximos meses, as restantes touradas de verão estão igualmente seriamente comprometidas, dado que, como sabem, a sua realização depende, muitas vezes, de angariações de fundos, decorrentes da promoção de eventos diversos, como jantares ou festivais de sopas, que não podem ser realizados neste momento, nem nos próximos tempos, atendendo à atual situação de estado de emergência. Várias touradas das festividades de verão, que estavam agendadas e contratadas, foram já canceladas junto dos ganaderos.

PE — A concretizar-se esta possibilidade, quais os impactos para os criadores de toiros em particular e para economia em geral?
SF — O impacto é inevitável e catastrófico para uma atividade sazonal como a tauromaquia.
As touradas começam a 1 de maio e prolongam-se até 15 de outubro. É neste período que os ganaderos recebem o retorno do investimento realizado ao longo de todo o ano. É neste período que obtêm os rendimentos que lhes permitem fazer face aos encargos de manter animais a pastar e a receber tratamentos veterinários durante uma longa época de defeso que se prolonga por quase sete meses.
Sem as touradas não há receitas que permitam aos ganaderos fazer face a um ano inteiro de despesas, o que, naturalmente, poderá colocar em causa a viabilidade de continuação de algumas ganadarias.
A tourada à corda faz parte da nossa história e gera riqueza que não se encerra nos ganaderos. São as ricas mesas com petiscos, as tascas e os foguetes, que dinamizam talhos, mercados e comércio local, são as roupas que se compram para serem exibidas nos arraiais, que ajudam a tesouraria de costureiras e prontos a vestir e não nos podemos esquecer que através de licenças, taxas municipais e IVA dos serviços prestados, a tauromaquia contribui com os seus mais de 200 espetáculos anuais para as receitas das câmaras municipais e fazenda pública.
A tourada à corda é uma atividade que gera cerca de 10% do PIB da nossa ilha e que também tem significativa representação nas ilhas da Graciosa, Pico e São Jorge, pelo que haverão repercussões inevitáveis na economia destas ilhas.

PE — Relativamente aos criadores de toiros, de que forma pensa a Associação agir no sentido de algum modo mitigar estes impactos?
SF — A Associação já realizou os primeiros contactos com as autoridades governamentais locais e regionais, no sentido de sensibilizar, quer o Governo Regional, quer as autarquias, para as dificuldades que as ganadarias vão enfrentar nos próximos tempos e para que, no limite dos seus recursos, sejam encontradas soluções para que os nossos associados, neste momento de particular fragilidade, consigam ultrapassar esta fase sombria e possam estar em condições de continuar a contribuir para a preservação da nossa cultura e tradição e para a geração de riqueza na nossa região.

PE — Relativamente à Associação que preside, quando foi a mesma criada e com que objetivos?
SF — A Associação Regional de Criadores de Toiros de Tourada à Corda foi fundada a 2 de junho de 2000 e reúne ganadarias com origem em diversas ilhas dos Açores. Tem atualmente, 15 ganadarias inscritas, sendo 11 da ilha Terceira, a saber: Francisco Sousa, Rego Botelho, Casa Agrícola José Albino Fernandes, Herdeiros de Ezequiel Rodrigues, Eliseu Gomes, Herdeiros de Humberto Filipe, Manuel João Rocha, João Gaspar, António Lúcio Ferreira, Francisco Pereira e Genoveva Tristão. 3 da ilha de São Jorge, ganadaria Álvaro Amarante, Gabriel Azevedo e Paulo Teixeira e uma da ilha da Graciosa, Ganadaria Manuel Silva.
Os principais objetivos da Associação são a promoção da seleção de ganadarias de toiros da tourada à corda; estudar e adotar as medidas apropriadas aos problemas relacionados com a produção e comercialização dos toiros à corda; prestar uma eficiente colaboração, quer no aspeto técnico como consultivo; participar na redação e cumprimento dos regulamentos que digam respeito a assuntos relacionados com a tourada à corda e promover e defender a Tauromaquia.

PE — Ao longo destes quase 20 anos de existência, que trabalho tem sido desenvolvido?
SF — A Associação quando foi criada tinha como principal objetivo a necessidade de criar consensos entre os ganaderos e uniformizar opiniões, com o intuito de defender a festa através da qualidade dos toiros e dos espetáculos. Esse trabalho começou por ser focado nas condições sanitárias dos animais, bem como no seu maneio. Nesse sentido foram elaboradas candidaturas junto das entidades governamentais de forma a melhorar as condições físicas das Ganadarias. Esse trabalho tem sido continuado ao longo dos anos e ultimamente houve também uma preocupação com a divulgação e promoção do espetáculo único que é a nossa Tourada à Corda, também como forma de sensibilizar o público, designadamente, os turistas, para algumas particularidades deste espetáculo, dando enfoque, por exemplo, ao trabalho feito no campo e às condições que são dadas aos animais.

PE — Por fim, neste tempo de exceção, que mensagem quer a Associação deixar?
SF — Gostávamos de deixar uma mensagem aos nossos associados e um apelo e agradecimento à população em geral, relacionados com o momento que atravessamos.
Aos nossos associados uma mensagem de esperança para todos. Iremos passar por muitas dificuldades nos próximos tempos. No entanto, por enquanto, o que podemos fazer é seguir escrupulosamente as orientações das entidades competentes, nomeadamente da Direção Regional da Saúde, e depois trabalhar arduamente para que as nossas vidas possam voltar a ser aquilo que eram e que as nossas tradições sejam novamente uma fonte de alegria e de convívio, com a certeza de que embora a distancia nos possa ter desgastado, ela não deslaçara os nossos afetos. Os acordes místicos da amizade e fraternidade serão novamente tocados pelos melhores anjos da nossa natureza.
Um apelo a todos dos Terceirenses, em geral, para que continuem a cumprir todas as medidas de segurança e isolamento, para que, tão depressa quanto possível, possamos todos retomar alguma normalidade e voltar a ver os arraiais da nossa ilha repletos de gente e alegria.
E, por fim, um agradecimento a todos quantos estão na linha da frente desta pandemia e que, mesmo perante todas as adversidades, não baixam os braços e mostram a força e a garra do povo da terra dos bravos.
A todos, um bem-haja!

Foto: © ARCTTC | PE

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