
Tal como milhares de jovens da minha idade, fui involuntariamente, bater com os costados numa Província do Ultramar, no caso concreto da Guiné Bissau!
Antes, longe da Capital, de algumas acções de contestação estudantil, aqui metido neste sossegado cantinho do Mundo, pouco me interessava ou envolvia sequer, numa discussão contra o regime ditatorial que tínhamos no tempo!… Trabalhava, não ganhava muito mal… e ia andando como se costuma dizer: Feliz e contente! 🙂 Entretanto na Guiné, partilhava dormida com um colega de Coimbra, antes, envolvido naqueles movimentos anti regime de Marcelo Caetano. Foi com ele que conheci algumas canções do saudoso Zeca Afonso, e foi também com ele que as cantava baixinho para que nem as paredes ouvissem!…
Foi lá que conheci o General António Spínola, na altura comandante das Forças Armadas Portuguesas naquele país! Mais tarde constituído Presidente da República, pelo Movimento das Forças Armadas!.
Regressei são e salvo, mas já não do modo que saí de cá, desinteressado pela política!… A convivência com outras mentalidades, aquela guerra sem sentido que me obrigaram a fazer, os colegas que lá pereceram! Tudo isso me transformou e me levou a desejar aquilo a que acabou sendo o 25 de Abril de 1974.
Embora longe desse movimento, apenas ouvindo pela rádio, regozijei-me com a queda do regime e a conquista da liberdade!
Convidado, ingressei num partido, que apelava aos direitos dos cidadãos, no trabalho, na saúde, na educação e sobretudo na sua liberdade de participação em todos os movimentos em prol da democracia! Outros mais surgiram, ou já existiam antes da própria revolução. Assim como continuam aparecendo mais, ora por desavenças com os existentes, ora por interesses um pouco ocultos!…
No momento, acabo sendo de todos e por vezes de nenhum!…
Sou de todos os que defendem o direito ao trabalho e ao seu reconhecimento, como benefício para a sustentabilidade do trabalhador e desenvolvimento do país!
Sou de todos os que defendem a educação, na igualdade de oportunidades para todas as crianças e jovens que a queiram desfrutar em toda a sua plenitude!
Sou de todos os que defendem a saúde pública para todos os cidadãos, não contrariando a privada, desde que também em benefício dos mais carenciados que dela precisarem!
Sou de todos os que defendam o combate às desigualdades sociais, à corrupção e o direito à justiça por todos os cidadãos!
Acabo sendo de nenhum!…
Quando o direito ao trabalho, é apenas protagonizado e bem pago para alguns, que defendem determinado aparelho!… Ficando os restantes no desemprego, ou com salários de miséria!
Quando a educação faz parte do calendário eleitoral, mas continua sendo desapoiada, tanto no aspecto material como intelectual!…
Quando a saúde, devia ser um direito adquirido e acaba sendo um gheto sem saída, onde os enfermeiros emigram, os Médicos desmotivados e os utentes abandonados!…
Quando a justiça só funciona para os prevaricadores mais pobres e se desenrola a passo de caracol (quase sempre a prescrever…) para com os mais ricos e poderosos!
É isso! E não me venham cá com direita ou esquerda, porque se chapéus há muitos, também há muitos barretes… tanto para um lado, como para o outro…
Fernando Mendonça*
(*) Por opção, o autor rejeita o AO90.
