
Olho à minha volta e revejo-me nesse retrato da vida!
Nascemos, crescemos e com um pouco de sorte chegamos a velhos.
Durante esse período, por força da natureza, vamos evoluindo física e mentalmente, ora pelas oportunidades que nos surgem, ora pelas nossas escolhas.
Há quem diga, que somos aquilo que nascemos, tanto para o bem, como para o mal. Discordo completamente deste princípio, pois acho que o tempo nos vai moldando, tal como o barro pelas mãos do oleiro. No caso concreto do ser humano, são as peripécias da vida, quase sempre madrasta, que nos vão alimentando a humildade e a sensibilidade. Com a idade, a fragilidade e consequentemente a dependência, são o que mais nos custa a aceitar, mas ao mesmo tempo também, a forma de nos coligarmos com mais afinco, àqueles que nos rodeiam.
Os nossos gestos, as nossas atitudes, podemos resumi-las ao carácter? Claro que sim. Mas até aquele sofre evolução ao longo dos anos. Teria aquele idoso, quando mais novo, ajudado a criança, que contando as moedas para pagar as poucas compras que fazia, naturalmente a mando da sua mãe, lhe faltava onze cêntimos e escolheu devolver o pequeno saquinho de “gomas” por achar o menos importante? Esse gesto comoveu o idoso e, podemos perguntar porquê? Creio que a sensibilidade, a lembrança dos filhos, dos netos ou netas, que poderiam estar na situação daquela criança, com pena de deixar as “gomas” fez com que dissesse à funcionária: Dê de volta à menina que eu assumo.
Como todos, tive o meu tempo em que me concentrava na minha vida, no sustento da família, no futuro dos meus filhos.
Hoje, olho mais á minha volta, e vejo aquela criança que referi, assim como muitas outras, também contando as moedas no supermercado. Mais grave do que isso, vejo alguns adultos fazendo o mesmo, prescindindo muitas vezes de bens essenciais à sua sobrevivência… Porque o que ganham não dá! Porque vão ser aumentados uns poucos euros, mas uma carcaça já aumentou dois cêntimos, um pão pequeno quatro, ao fim do mês pode chegar aos 6 euros e daí já só sobra muito pouco. Isto para não contar com o que pode vir a seguir, com o exagerado e, digo mesmo, vergonhoso aumento dos combustíveis, que vai acabar afetando toda a economia, nomeadamente dos mais fragilizados.
Testemunho também, aquela senhora que perguntava se sabiam de uma casa para alugar? Perdeu a fala, quando lhe sugeriram uma, que lhe custaria 600 euros mensais!
No entanto, há quem diga que está tudo bem! Na dúvida, perguntem àquela criança porque deixava as “gomas” atrás, ou à senhora porque não podia pagar o aluguer!
Retratos da vida! Os quais, alguns lá do alto, no poder, não enxergam ou fazem de conta que não…
Fernando Mendonça
