
A Filarmónica União Praiense assinala esta sexta-feira, 20 de março de 2026, o seu 122.º aniversário, com um programa comemorativo que inclui momentos musicais e cerimónias evocativas.
As celebrações tiveram início pelas 07h00 com a tradicional alvorada. Pelas 19h00 será celebrada uma missa por alma dos sócios e músicos já falecidos, na Igreja Matriz de Santa Cruz.
O programa prossegue às 20h00, no Auditório do Ramo Grande, com a realização da sessão solene comemorativa, seguindo-se um concerto evocativo do 122.º aniversário da coletividade.
A história desta filarmónica remonta ao início do século XX, quando existiam na então vila da Praia da Vitória duas bandas distintas: a “Filarmónica Praiense”, conhecida popularmente como a “filarmónica da elite”, composta por músicos de classes sociais economicamente mais favorecidas, e a “Filarmónica Recreio dos Artistas”, formada por músicos de origem mais modesta, provenientes de profissões populares como alfaiates, pedreiros e sapateiros.
Segundo registos históricos, o contexto social da época contribuiu para um ambiente de forte rivalidade entre as duas agremiações. Com o tempo, porém, essas tensões foram sendo atenuadas graças à intervenção do padre José de Sousa Pereira. O processo culminou ao nascer do sol do dia 20 de março de 1904, quando se concretizou a união das duas bandas, dando origem à Filarmónica União Praiense.
Ao longo da sua história, a instituição conheceu períodos de grande dinamismo cultural, sobretudo nas primeiras cinco décadas de existência, marcando o panorama sociocultural do concelho da Praia da Vitória não apenas através da música, mas também com iniciativas ligadas ao cinema e ao desporto.
A filarmónica enfrentou, contudo, momentos difíceis, nomeadamente uma grave crise financeira que chegou a colocar em causa a sua continuidade. Nessa altura, chegaram mesmo a ser colocados à venda instrumentos e fardamentos da banda. A situação foi ultrapassada graças à intervenção de um grupo de praienses, liderado por António Silva, popularmente conhecido por “António Maminha”, que mobilizaram esforços para garantir a sobrevivência da instituição.
Mais de um século depois da sua fundação, a Filarmónica União Praiense mantém-se como a única filarmónica em atividade na cidade da Praia da Vitória.
A propósito deste aniversário, Praia Expresso esteve à conversa com o presidente da Direção, António Avelino Borges, que nos falou sobre o momento atual da instituição e anunciou alguns dos projetos que a coletividade pretende desenvolver no futuro.
Como caracteriza o momento atual da FUP, numa altura em que a instituição celebra 122 anos de existência?
A Filarmónica atravessa, nesta fase em que celebramos o nosso 122.º aniversário, um momento que podemos classificar como de “trampolim”. Utilizo esta expressão porque, quando iniciámos funções aqui, em setembro de 2024, a realidade era bastante diferente daquela que encontramos hoje. Na altura, a escola de música contava apenas com dois professores e a Filarmónica estava sem maestro.
Durante cerca de dois meses estivemos à procura de um regente que nos garantisse o mínimo de condições para manter a atividade da banda. Foi então que encontrámos uma maestrina dos Altares, a Carolina à qual muito agradecemos que, durante um ano, teve a disponibilidade de nos acompanhar nos ensaios de quinta-feira e também em muitos dos nossos compromissos, permitindo que a Filarmónica continuasse a funcionar.
Entretanto, reforçámos também a equipa da escola de música. Aos dois professores já existentes — um com maior disponibilidade e outro com menor — juntou-se um terceiro docente. Mais recentemente, contratámos ainda mais um professor, passando atualmente a contar com quatro professores: um de percussão, um de clarinetes, uma dedicada à iniciação e a outros instrumentos de palheta e, por fim, um professor responsável pelos instrumentos de metal, ou seja, os chamados instrumentos de bocal.
Quais são hoje os principais desafios que a FUP enfrenta para manter a sua atividade regular e continuar a afirmar-se na vida cultural da Praia da Vitória?
Neste momento, o nosso maior desafio prende-se em motivar todos os músicos com a assiduidade aos ensaios e compromissos agendados. Só com esse compromisso coletivo é possível atingir os objetivos que são de todos nós.
Temos também tentado passar para os pais algumas das nossas dificuldades, fazer os mesmos compreenderem plenamente esta realidade, e esse acaba por ser um dos principais desafios que enfrentamos. Por isso, deixo um apelo aos pais para que nos ajudem, procurando conciliar as agendas dos seus filhos de forma a permitir a sua presença regular nos ensaios e tocatas, para que a Filarmónica possa apresentar-se ao melhor nível.
Naturalmente, existem sempre desafios de natureza financeira que nos preocupam. No entanto, graças aos apoios que temos vindo a receber — alguns mais atempadamente do que outros — temos conseguido manter a atividade, com maior ou menor dificuldade, mas de forma globalmente positiva.
Que importância tem a formação de novos músicos para o futuro da Filarmónica e que trabalho está a ser desenvolvido nesse sentido?
A formação é, de facto, a componente mais importante que temos na Filarmónica. É através da formação de novos músicos que conseguimos garantir a continuidade e o funcionamento da própria Filarmónica.
Por isso, um dos primeiros passos que demos foi assegurar professores de música, reativando a nossa escola de música, e procurar um regente. Procurámos, assim, centrar e priorizar a nossa ação na formação e no desenvolvimento dos músicos, mais do que noutras necessidades que também existem à nossa volta.
Importa ainda salientar que, ao nível da formação, não nos focamos apenas na aprendizagem individual dos alunos, mas também no reforço dos instrumentos e dos materiais didáticos necessários ao ensino.
Atualmente, a nossa escola de música conta com cerca de 15 a 20 alunos, sendo que alguns são mais assíduos do que outros.
No que diz respeito aos instrumentos, candidatámo-nos a um projeto da GRATER, através do qual adquirimos vários instrumentos novos, que vieram reforçar e complementar o conjunto de instrumentos que já possuíamos.
ÓRGÃOS SOCIAIS — BIÉNIO 2024/2026
Assembleia Geral
Presidente: Francisco Ferreira
Vice-Presidente: Carlos Cabral
Secretário: João Sousa
Direção
Presidente: António Avelino Borges
Vice-Presidente: José António Mendonça
Secretário: Miguel Bettencourt
Tesoureiro: Nuno Cabral
Vogais: Fátima Costa; Vanda Câmara; David Martins; Fábio Gomes; Ana Carmo
Conselho Fiscal
Presidente: Saúl Mouro
Secretário: Carlos Gomes
Relator: Hildeberto Silva
Ao longo dos últimos anos, a FUP tem apostado em projetos musicais diferenciados, como o concerto “FUP — The Beatles”, em 2013, o espetáculo evocativo dos 40 anos do 25 de Abril, em 2014, e mais recentemente o concerto “Praia Mia”, inspirado nos ABBA. Estão previstos novos projetos deste género para os próximos tempos?
Ao longo dos últimos anos, foram desenvolvidos vários projetos por direções anteriores da Filarmónica, como os concertos dedicados aos Beatles, aos 40 anos do 25 de Abril, ao Passo Doble e, mais recentemente, o espetáculo “Praia Mia”.
O “Praia Mia” tem sido, para nós, um projeto muito enriquecedor. Estreámo-lo no Palco Marina, nas Festas da Praia de 2025, e posteriormente apresentámo-lo também no Auditório do Ramo Grande. Agora estão previstos mais dois concertos deste espetáculo: o primeiro no dia 11 de abril, no Parque Multissetorial da Ilha Terceira, na Vinha Brava, integrado no festival Wine in Azores 2026; e o segundo no dia 6 de junho, no Teatro Angrense, que assinalará o encerramento deste projeto.
Para o futuro já estamos a pensar em novos projetos, que poderão centrar-se em temas do artista britânico Elton John ou da banda portuguesa UHF. Para já, ainda não existe uma decisão definitiva quanto à escolha, embora haja uma forte inclinação para um espetáculo dedicado a Elton John.
Em termos de calendário, gostaríamos de lançar um novo projeto até ao final do ano. Temos a ambição de apresentar iniciativas deste género, de maior dimensão artística, com alguma regularidade. Como, normalmente, entre as festas das Lajes e o período do Natal atravessamos uma fase com menos compromissos, essa poderá ser a altura ideal para avançarmos com novos projetos.
A Direção tem em preparação novos investimentos ou parcerias, nomeadamente ao nível de equipamentos, formação ou intercâmbios culturais?
Ao nível dos investimentos e das parcerias, um dos nossos principais parceiros é a Câmara Municipal da Praia da Vitória, que tem sido um apoio muito importante para a Filarmónica, não apenas em termos financeiros, mas também no desenvolvimento de projetos e no apoio logístico.
Sempre que necessitamos de utilizar a Academia da Juventude e das Artes da Ilha Terceira ou o Auditório do Ramo Grande, e desde que o pedido seja feito atempadamente, temos tido sempre essa possibilidade, tendo naturalmente em conta que existem também solicitações de outras instituições. Além disso, temos participado em projetos e iniciativas a que nos podemos candidatar, nomeadamente aqueles de menor dimensão, e temos procurado aproveitar todas as oportunidades que possam contribuir para reforçar a nossa atividade.
Sempre que existem eventos em que é possível angariar algum apoio financeiro — como acontece, por exemplo, na Aldeia de Natal — somos convidados a participar, podendo explorar uma pequena barraquinha. A autarquia tem também sido um apoio importante na organização do nosso evento anual, o “Arraial FUP”. Existe, portanto, uma parceria muito próxima.
Também a Junta de Freguesia de Santa Cruz tem colaborado connosco de forma significativa. Para além disso, contamos com o apoio de outras entidades, como a GRATER, que foi parceira num investimento destinado à aquisição de novos instrumentos.
Mais recentemente, surge também o apoio da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, que irá colaborar no concerto que realizaremos no dia 6 de junho. Felizmente, temos encontrado várias instituições disponíveis para apoiar a Filarmónica e abrir portas a novos projetos.
Ao nível do Governo Regional, tivemos igualmente o apoio do programa “Bento Góis” que apoia iniciativas dirigidas à juventude e do programa “SOREFIL” que apoia outras despesas como por exemplo reparação de instrumentos, escola música, etc. Graças a esses apoios, nomeadamente do programa “Bento Góis”, foi possível realizar uma deslocação à ilha Graciosa, o que foi particularmente importante para nós, tendo em conta que contamos com muitos elementos jovens na Filarmónica.
Entretanto, estamos também a preparar a renovação do nosso fardamento, uma vez que utilizamos a mesma farda há mais de vinte anos e esta já apresenta algum desgaste.
No que diz respeito aos intercâmbios culturais, realizámos recentemente um intercâmbio com a Filarmónica do Guadalupe, da ilha Graciosa, embora ainda aguardemos a visita de retribuição. Este ano pretendemos também promover um intercâmbio com uma filarmónica da ilha de Santa Maria.
Para além disso, iremos receber este ano a União Filarmónica do Troviscal, do distrito de Aveiro, e, se tudo correr como previsto, em 2027 será a nossa Filarmónica a deslocar-se a Aveiro, no âmbito desse intercâmbio.
Que visão tem para a Filarmónica União Praiense nos próximos anos e quais são os principais objetivos estratégicos que gostaria de concretizar?
Somos uma direção com um mandato de dois anos, que termina em setembro deste ano. Pessoalmente, e caso a minha equipa também esteja interessada, iremos tentar renovar o mandato para conseguir concretizar todos os nossos objetivos.
Em termos da Filarmónica, os nossos principais objetivos passam por manter uma escola de música bem estruturada, ter uma banda de qualidade, com fardamento adequado e instrumentos adaptados a todos os músicos. Existem ainda alguns naipes que não possuímos e gostaríamos de os integrar na nossa composição.
No que diz respeito à estrutura física, contamos com o apoio da Câmara Municipal da Praia da Vitória para realizar obras no telhado e restaurar as cantarias da fachada principal, que, por se tratar de um edifício muito antigo, se encontram bastante degradadas. No interior, planeamos pequenas pinturas e outros trabalhos de restauro necessários, de forma a apresentar uma sede adequada e acolhedora aos visitantes. Pretendemos também instalar ar condicionado na sala de ensaio, pois, durante o verão, a acústica proporcionada pela madeira torna o ambiente demasiado quente, e a climatização proporcionará maior conforto aos músicos.
No âmbito da gestão e organização, queremos melhorar os serviços administrativos, implementando um sistema de registo cadastral dos sócios. Paralelamente, pretendemos lançar uma campanha de angariação de novos membros, com o objetivo mínimo de alcançar 100 novos sócios.
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