SAÚDE RENAL PARA TODOS: O IMPACTO DE DEIXAR A CASA PARA TRATAR

Assinala-se este ano o Dia Mundial do Rim sob o tema “Saúde Renal para Todos: Cuidar das Pessoas, Proteger o Planeta”, escolhido pela International Federation of Kidney Foundations – World Kidney Alliance (IFKF-WKA), numa edição que assinala igualmente o 20.º aniversário desta efeméride internacional dedicada à promoção da saúde renal.

A mensagem associada a esta data ultrapassa a dimensão estritamente clínica da doença renal. “O calor extremo, a escassez de água própria para consumo e a degradação da qualidade do ar constituem fatores ambientais que representam riscos reais para a saúde das populações. Cuidar do planeta é, por isso, também prevenir doença e proteger a qualidade de vida das pessoas.”

Nos Açores, esta reflexão assume particular relevância. A realidade arquipelágica, característica da nossa Região, continua a colocar desafios acrescidos no acesso equitativo a cuidados de saúde diferenciados. No caso da doença renal crónica, cuja sobrevivência depende de tratamentos regulares e contínuos, a dispersão geográfica pode traduzir-se numa alteração profunda da vida dos doentes e das suas famílias.

A Delegação dos Açores da Associação Portuguesa de Insuficientes Renais associa-se, como tem sido habitual, à celebração desta data através de iniciativas de sensibilização, prevenção e promoção da saúde renal, nomeadamente através da realização de rastreios junto da população. Este ano assume um significado especial, ao assinalarmos o 10.º aniversário do trabalho desenvolvido em defesa dos doentes renais açorianos.

Ao longo destes anos, tornou-se evidente a realidade vivida por doentes residentes em ilhas onde não existe centro de hemodiálise. Para muitos, o início do tratamento implica a deslocação para outra ilha, obrigando ao afastamento da casa, da família, da atividade profissional e da comunidade onde sempre viveram. Trata-se de uma mudança exigente, com impacto não apenas físico, mas também social e emocional.

Importa, contudo, salientar que, sempre que existam condições clínicas adequadas, a diálise peritoneal constitui uma alternativa terapêutica que permite ao doente realizar o tratamento no seu domicílio, mantendo-se junto da família e integrado na sua comunidade. Nestes casos, as deslocações às ilhas com hospital passam a ocorrer essencialmente para acompanhamento médico e consultas regulares, contribuindo para uma maior estabilidade pessoal e familiar.

Garantir saúde renal para todos implica reconhecer estas realidades e continuar a promover respostas que reduzam desigualdades no acesso aos cuidados de saúde, particularmente em regiões ultraperiféricas como os Açores.

Neste Dia Mundial do Rim importa reforçar que a saúde deve ser pensada numa lógica de proximidade, equidade e humanização dos cuidados. Porque tratar uma doença não deve significar, sempre, deixar para trás o lugar a que se chama casa.

Osório Meneses da Silva
Presidente da Delegação Açores da Associação Portuguesa de Insuficientes Renais