
A segunda volta das eleições presidenciais de 1986 colocou frente a frente duas figuras centrais da vida política portuguesa do pós-25 de Abril: Mário Soares e Diogo Freitas do Amaral. Para além das diferenças ideológicas e de percurso político, esse confronto revela também um dado hoje frequentemente esquecido no debate público: o nível e a precocidade das habilitações académicas dos candidatos.
Mário Soares, nascido em 1924, apresentava um percurso académico sólido e diversificado. Com apenas 37 anos, já era licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas e em Direito, ambas pela Universidade de Lisboa. Esta dupla formação refletia-se claramente no seu perfil intelectual: por um lado, uma sólida base humanística e histórica; por outro, um domínio técnico do Direito que marcou a sua atuação como advogado, oposicionista ao Estado Novo e, mais tarde, como governante. Importa sublinhar que estas licenciaturas foram obtidas num contexto político adverso, marcado por perseguições, prisões e limitações impostas pela ditadura.
Diogo Freitas do Amaral, por seu turno, representa um caso de excecional precocidade académica no panorama português. Doutorou-se em Direito com apenas 26 anos, tornando-se um dos mais jovens doutorados da sua geração. Professor catedrático de Direito Administrativo, era já uma referência académica quando entrou na política ativa. Antes mesmo das presidenciais de 1986, tinha exercido funções governativas de grande responsabilidade, incluindo as de ministro e de vice-primeiro-ministro, o que lhe conferia uma combinação rara de profundidade académica e experiência política.
O confronto eleitoral de 1986 surge, assim, como um exemplo claro de uma época em que os principais candidatos à Presidência da República apresentavam percursos académicos longos, exigentes e consolidados, muitas vezes concluídos em idades muito jovens e antes da ascensão aos mais altos cargos políticos.
Quando se compara este quadro com a atualidade, o contraste é inevitável. Sem entrar em juízos pessoais ou partidários, é legítimo questionar se o debate público contemporâneo valoriza com a mesma exigência a formação académica, o percurso intelectual e a preparação técnica dos candidatos a cargos de soberania. Em 1986, independentemente das opções políticas dos eleitores, o país escolhia entre dois candidatos cuja formação académica e densidade intelectual eram indiscutíveis e amplamente reconhecidas.
Mais do que um exercício de nostalgia, esta comparação convida a uma reflexão séria sobre os critérios que hoje presidem à seleção das lideranças políticas e sobre o lugar que o mérito académico e intelectual continua — ou não — a ocupar na vida democrática portuguesa.
Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor
