QUANDO OS NEANDERTAIS CAMINHARAM À BEIRA-MAR DO ALGARVE

Há descobertas que não se anunciam com o estrépito das grandes datas ou das batalhas decisivas, mas que, silenciosamente, alteram a forma como nos vemos a nós próprios. As recentes pegadas de Neandertais identificadas na costa algarvia pertencem a essa categoria discreta e profunda da História: não falam de reis, nem de impérios, mas de passos — passos humanos, demasiado humanos — deixados na areia há cerca de oitenta mil anos.

Naquele tempo remoto, quando o litoral do que hoje chamamos Algarve se apresentava mais amplo e selvagem, pequenos grupos de Neandertais percorriam a orla costeira. Não sabemos os seus nomes, não conhecemos as suas palavras, mas agora conhecemos algo ainda mais íntimo: a forma como caminhavam. Adultos e crianças avançavam juntos, lado a lado, deixando impressões que o acaso geológico decidiu preservar para nós, habitantes tardios desta mesma paisagem.

É difícil não sentir um certo desconforto intelectual perante este achado. Durante muito tempo, habituámo-nos a pensar os Neandertais como figuras sombrias, quase caricaturais, confinadas a grutas e a climas hostis. A ciência, porém, tem vindo a desmontar pacientemente esse preconceito moderno. As pegadas algarvias mostram-nos comunidades organizadas, familiares, perfeitamente adaptadas ao ambiente costeiro — capazes de explorar recursos marinhos, de se deslocar com conhecimento do território e, sobretudo, de viver em grupo.

Estas marcas no solo dizem-nos algo que os ossos e as ferramentas raramente conseguem dizer: os Neandertais não apenas sobreviveram — viveram. Caminharam, pararam, observaram o mar, conduziram crianças pelo mesmo chão onde hoje estendemos toalhas de praia. O tempo que nos separa deles é imenso; a distância humana, afinal, é curta.

Para a História de Portugal, esta descoberta tem um valor simbólico notável. O território português, tantas vezes apresentado apenas como palco tardio da História europeia, surge aqui como espaço antigo de humanidade, profundamente enraizado na pré-história do continente. Muito antes de portucalenses, de reinos ou de fronteiras, já havia vida social, movimento e pertença neste extremo ocidental da Europa.

Talvez o maior mérito destas pegadas seja lembrar-nos que a História não começa com a escrita, nem sequer com a agricultura. Começa com um gesto simples: um pé pousado no chão, seguido de outro, num caminho que ninguém sabe onde termina. Os Neandertais do Algarve não sabiam que estavam a fazer História. E, no entanto, ao caminharem, fizeram-na.

Hoje, ao reconhecermos essas marcas antigas, não estamos apenas a estudar o passado. Estamos, de certa forma, a reconhecer que a longa caminhada humana — com todas as suas rupturas e continuidades — também passou por aqui.

Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor