
As matas (ou ladeiras) foram para muitas gerações, incluindo a de meus pais e meus avós, um elemento importante na sustentabilidade das famílias. Podemos dizer que no tempo, quem tinha uma mata para colher a sua própria lenha, era uma família, não rica, mas aquilo a que se chamava de remediada.
Como é sabido, o pão cozia-se no forno que se tinha em casa e, para isso precisava-se da preciosa lenha de faia, a mais usada e abundante na Serra do Facho, junto à qual eu fui criado. A sua grande dimensão, de que me lembro, começava junto à baía da Praia da Vitória, acabando no largo de Santa Rita. Isto, depois da construção do Aeroporto, porque antes chegaria até à Caldeira das Lajes. Por aqui podemos ver, a importância da sua existência para os habitantes da zona circundante! Ainda hoje aparecem as divisórias de algumas dezenas de lotes, querendo isto dizer, que todo aquele que tinha algumas posses, adquiria e mantinha a sua ladeira, como se chamava no tempo.
Vivia-se praticamente da terra, semeavam-se os cereais que haviam de produzir a farinha para que o pão não faltasse, como elemento essencial ao sustento das famílias. Logo, a necessidade de ter um forno e a lenha para o aquecer.
Basicamente era a lenha que a ladeira produzia. No entanto, aproveita-se a zona mais baixa e produtiva, para o cultivo de alguns tubérculos, árvores de fruto ou até das bananeiras.
Para além da faia, a mais utilizada na cozedura, existia também a árvore de roseira. Famosa pela sua resistência e por isso mesmo utilizada nos utensílios agrícolas ou na construção de mobiliário ou moradias. Ainda hoje costumamos dizer, quando vemos um idoso mais rijo, capaz de ainda cavar a terra ou resistir às intempéries. Olha, aquele é de roseira…
A faia do norte, é reconhecida pela Universidade dos Açores, como de grande valor na produção do pólen. Contribuindo para que as abelhas produzam um mel, não só muito nutritivo, mas também ainda, de remédio para infeções, nomeadamente das mastites das vacas leiteiras. Talvez por isso a escolha de alguns apicultores, em colocar as abelhas em local, circundado pela faia do norte!
Era assim a vida do campo, com quase nada do que se tem hoje, mas com quase tudo do que era preciso para sobreviver!

Hoje, como se pode ver à nossa volta, estão as matas desprezadas, perderam a sua importância e a Serra do Facho só é visitada e conhecida, pela presença da imagem do Sagrado Coração de Maria…
Fernando Mendonça
